Tirania sem fim

Buscar sentido através de fenômenos externos é mecanismo que, apesar de comum, jamais levará o ser à independência. Atrelar-lhe o valor a juízos incontroláveis, quando não simplesmente injustos, é nivelar-se por baixo e evidenciar carência de autonomia. Pior é ver que a aceitação, quando efetivada, não faz senão apontar os tipos de rebanho — maioria absoluta — que, apesar de não perceberem, jamais deixarão a condição de vassalos, porquanto enxergar o meio como soberano é submeter-se a uma tirania sem fim.

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Entre humildade e vergonha

De início, sentar-se voluntariamente no banco dos réus. Então proceder com a própria condenação. O resultado óbvio: a contraindicação de si mesmo. Perda das ilusões, talvez alguma apatia, silêncio e muitas horas de reflexão. Assim, entre humildade e vergonha, é possível traçar algum plano de ação…

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A consciência manifesta-se travando conflito

Uma análise psicológica apurada evidencia que a consciência manifesta-se travando conflito. Em outras palavras: a consciência não é senão uma reação, uma manifestação contrária a impulsos psicológicos naturais. Deixá-la falar, pois, é rebelar-se contra o próprio gênio, dando azo a uma guerra talvez desnecessária, porquanto se vive naturalmente sem que toda ação envolva esse desagradável conflito interior. Disse desnecessária; pois bem: são destas que se extrai qualquer honra possível.

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O conto que Kafka não escreveu

Um banalíssimo sujeito mantém, por quinze anos, o mesmo número de celular. Construiu, assim, uma rede de contatos pessoais e profissionais extensa. É, sobretudo, dependente deste número. Eis que, subitamente, passa a receber entre 100 e 150 ligações diárias em horário comercial de empresas tentando vendê-lo qualquer sorte de produto financeiro. Entre 100 e 150 ligações de 8h às 18h: fazendo a matemática de padaria, o número equivale a aproximadamente uma chamada a cada cinco minutos. O sujeito, aliás, o jovem misantropo é forçado a atendê-las todas, posto haver a possibilidade de, entre os números desconhecidos, encontrar-se um possível cliente. O número é, também, um número de trabalho. De cinco em cinco minutos, o telefone toca. O jovem atende com grosseria, dispensa a empresa invasiva irritadíssimo por ser acionado para ouvir sobre produtos que não tem o menor interesse, sem ter jamais concedido abertura para que tais ligações fossem realizadas. Então se lhe torna a rotina um inferno. Não consegue concentrar-se em nada, o telefone não para de tocar. Tem de atender, passa a ser rude na primeira palavra, destrata contatos profissionais por engano. “O senhor Luciano Duarte, por favor…”, “Por gentileza o senhor Luciano…”, “Neste número eu consigo falar com o senhor Luciano?…”. Oh, Kafka, irmão, ajuda esse teu personagem!

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