A tendência moderna de produzir “especialistas”

Há, a nível mundial, uma tendência escancarada a produzir “especialistas”. A princípio, é natural que todas as áreas apresentem um aprofundamento e que estudos cada vez mais detalhados sejam disponibilizados ao estudante comum. Entretanto, a pergunta: e o conjunto? e a ligação entre áreas distintas do conhecimento? e a visão panorâmica, abrangente? Digo e penso em duas coisas. Primeiramente, na monumental História da literatura ocidental de Carpeaux, uma obra que, quanto mais a analiso, mais a considero valiosa: nela, que jamais poderia ser classificada como “superficial”, mais de vinte séculos de cultura estão magnificamente concatenados. O estudante vê brilhar diante de si o elo impossível e conquista, em relativamente poucas páginas, uma visão que o permite transitar pelas mais diversas correntes de pensamento. Uma obra deste tipo é o oposto da tendência intelectual vigente. Em segundo lugar, penso nos estudantes. O interesse múltiplo, o estudo diversificado não costuma fazer carreiras: cresce quem se torna um “especialista”. Tornando-se um “especialista”, o estudante flerta com a possibilidade de conhecer uma área e ignorar todas as outras, ignorando, também, a aplicabilidade real do próprio conhecimento. Muito bem! Que vale mais, ou para que serve o estudo? Parece-me, nas respostas, residir a principal distinção entre os intelectuais modernos.

Nietzsche simboliza a liberdade de espírito

É muito difícil reconhecer a autonomia daqueles que parecem incólumes às explosões de Nietzsche. Gostam de apedrejá-lo, tirá-lo do contexto, destacá-lo da nobreza de caráter que lhe é peculiar. Nietzsche simboliza a liberdade de espírito, a potência, a coragem intelectual. Desmerecê-lo parece-me, sobretudo, desmerecer estas três nobilíssimas qualidades.

O monstro moderno

Mário Ferreira dos Santos, sobre Nietzsche:

Era ele adversário do Estado, o monstro moderno, o Moloch dos nossos dias, o devorador de homens e de consciências, a mais brutal criação da fraqueza humana e que terminará por cansá-la totalmente, a ponto de, um dia, abominar todas as formas de opressão, e destruí-las com um ímpeto que fará estremecer as páginas da história. Não o poderá facilmente compreender esse homem de hoje, esse cativo que lambe as algemas, esse “Haustier”, esse animal domesticado, que se acostumou a adorar o monstro de que ele fala.

A nota data de 1957. Que dizer? Pouco mais de meio século, e podemos verificar a precisão da brilhante observação de Mário. O colapso do estado moderno é inevitável, entretanto… o “cativo que lambe as algemas” continua, passivo, a lambê-las, num estado de inconsciência admirável em que não exibe o menor sinal de esgotamento. A situação só fez agravar: o monstro cresceu, ampliou-lhe o domínio, e já dispensa qualquer pudor. A questão, porém, perdura estática: até quando? De um lado, a reação é inevitável; doutro, o despertar parece distante. O que resta evidente é que, como bem previu Mário, chegará o dia em que o “devorador de homens e de consciências” ver-se-á diante de uma explosão violentíssima e extraordinária, oriunda de uma letargia que aparentava perpétua.

A prosa de Paul Valéry

Incrível como a prosa de Paul Valéry é contagiante! Especialmente nos ensaios, deparo-me com uma vivacidade enorme, inédita, em linhas que expõem grande curiosidade, erudição em variadas áreas, leveza no manejo do idioma, precisão nas observações e, acima de tudo, um olhar a mim todo novo. Surpreendo-me, por exemplo, com alguns adjetivos. Discorrendo sobre experiências intelectuais ou literárias, lá está o cativante délicieux, ainda que na forma adverbial. Salvo engano, esse adjetivo jamais foi evocado uma única vez por estes dedos mórbidos, nem em prosa, nem em verso, nem em nada. Incrível! E, analisando as descrições de Valéry, a assimilação intelectual de suas experiências, suspeito-me a percepção falha — ou será a experiência? Tanto faz… Trabalhemos! E comecemos com esta nota: a prosa de Valéry é deliciosamente empolgante!