Vivem pouco justamente os que aparentam viver muito

Bato estas notas, sempre, em ambiente estático, em completa solidão. Tudo rigorosamente imóvel, exceto meus dedos assanhados. Há pouco, pensei em Fernando Pessoa. Para o meu espanto, ele apareceu vivo, vivíssimo do meu lado. Como? É o que eu gostaria de saber. Havia pensado, pouco antes, em escrever o seguinte: “A existência só me é justificável como resposta aos autores que li, como a continuidade do que eles começaram”. E concluiria que, apesar de mortos, eles não morreram. Então Pessoa irrompe no meu quarto. É curioso: há um século atrás, ele estava, como eu, encerrado num quarto em qualquer canto de Lisboa, refletindo em solidão. Sabia ele da potência dos próprios versos? que resistiriam, vigorosos, à tirania do tempo? Sabia… o Pessoa sabia… E, naturalmente, aos olhos do mundo, encerrado num quarto, o poeta “deixava de viver”. Pergunto: e agora, e para o resto da eternidade, quem vive e viverá mais: o sujeito que “vivia”, ou o poeta, que “deixava de viver”? Um século depois, Pessoa, rompendo a barreira do tempo e do espaço, encontra-se em meu quarto. E se abro sua Ode marítima, serei tomado de uma euforia real e fortíssima, mais viva que qualquer outra sensação que uma pessoa (com “p” minúsculo) contemporânea poderia me gerar. E aí está o óbvio: vivem pouco — muito, muito pouco — justamente os que aparentam viver muito, aos olhos do míope convencional…

____________

Leia mais:

A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe

Em A filosofia da composição, Edgar Allan Poe explana, detalhadamente, o seu processo de criação poética, exemplificando através de seu poema mais conhecido, o maravilhoso The Raven.

Sem intenção de resumir ainda mais o que já se encontra extremamente resumido nas poucas páginas do ensaio, vamos a alguns tópicos interessantes.

Poe começa, em tradução livre:

Seleciono “The Raven” por ser o mais conhecido. É meu desejo tornar manifesto que nenhum ponto de sua composição é relacionado a um acidente ou intuição — que o trabalho prosseguiu, passo a passo, até sua conclusão, com a precisão e a consequência rígida de um problema matemático.

Alguma surpresa? É claro que não.

Doce ilusão a dos que pensam que uma grande criação artística seja fruto de qualquer iluminação divina: é fruto de trabalho duro, critério e rigor.

The Raven é, esteticamente, primoroso. A atmosfera e a musicalidade que emana desse pequeno poema é magnífica.

E é interessante verificar a progressão do processo criativo de Poe: primeiro, a ideia; depois, o tom; depois, o formato; e, finalmente, a composição.

Quer dizer: ao compor The Raven, ao pensar em como desenvolveria The Raven, Poe sentou-se já sabendo sobre o que iria compor, quanto iria compor e como iria compor. A unidade alcançada não foi fruto do acaso.

Outro aspecto interessante de A filosofia da composição é a maneira como Poe enfatiza a importância do tom do poema: primário, uma vez definido, influencia todas as demais etapas da construção poética.

A beleza, seja ela de qualquer estirpe, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente excita a alma sensível às lágrimas. A melancolia é, pois, o mais legítimo de todos os tons poéticos.

E The Raven, impregnado de melancolia, faz transbordar o sentimento e o leitor, em poucos versos, vê-se em estado de espírito semelhante.

Isso ocorre, primeiro, em razão dos efeitos pictóricos: a noite tempestuosa, a solidão no quarto e o corvo que irrompe da escuridão.

Depois, pela melancolia proveniente da morte da mulher amada.

E, finalmente, em razão da repetição dos fonemas fechados, graves e longos no final das estrofes — “nevermore”, “nevermore”, “nothing more”, “nothing more”

The Raven é um poema maravilhoso, intraduzível que, após fechado, permanece a ecoar. E se algo conclui-se após conhecer-lhe o processo construtivo é que o alto nível, em poesia, atinge-se somente em decorrência de um tremendo rigor.

____________

Leia mais:

É necessário paciência para se compor um poema

Disse uma vez que forçar o início do movimento dos dedos basta para que a prosa tome vida. Ou, em outras palavras: faz-se prosa à força. Quão diferente é a poesia! Nela, não há que fazer: para que saia com qualidade, é necessário, acima de tudo, paciência. Para que se comece a compô-lo, o poema tem de estar praticamente pronto, isto é: estruturalmente definido e com os versos, no mínimo, bem esboçados. E paciência para o terrível trabalho de encontrar entre centenas de milhares de palavras as que exprimem o pensamento, enquadram-se no ritmo e entregam a sonoridade desejada. E mais paciência: pois quando, após exaustivo trabalho, o poema aparenta finalizado, é hora de pô-lo a descansar. Semanas? Meses? O que está claro é que, sem tremenda paciência, os versos não chegam à almejada forma final.

____________

Leia mais:

Perseverança e nada mais…

Toda a minha ainda minúscula produção literária é fruto de uma perseverança que nunca tive para nenhuma outra atividade. Devo, admito, de prestar honras aos abafadores de ruído, invenção infinitamente mais útil que, por exemplo, o telefone: quando sobrepostas unidades de diferentes modelos, produzem paz e resolvem grande parte de meus problemas. Porém, se analiso com mais cautela, encontro-me toda a realidade hostil ao meu ato de escrever. É sábado: ao brasileiro, dia de álcool e socialização. Encontro-me, neste exato momento, com o notebook em cima de uma caixa de sapatos assentada, por sua vez, sobre um criado-mudo na extremidade de meu quarto; sento-me numa cadeira que mais parece um banco: baixa, desconfortável, sem apoio para as costas; e minhas pernas encontram-se imóveis, encaixadas cada uma num espaço de não mais de quinze centímetros no vão que se abre, de um lado, entre a parede e o criado-mudo e, de outro, entre este e minha cama. “Isso é piada. De um lugar assim, jamais sairá qualquer arte…” — mas não acabou: um carro, na rua, reproduz em alto volume qualquer música sertaneja; uma vizinha grita ao telefone — obstinada, quer penetrar minha mente, mas sorrio, pois sei que ela não irá… — Pensei, há alguns meses atrás: “Em minha condição atual, é impossível escrever”. Mas daqui, deste espaço apertado, desconfortável e barulhento saíram quase todas as minhas poucas centenas de páginas, em poesia e prosa. Não há silêncio — nunca!; —não há uma cachoeira a rumorejar agradavelmente próxima a mim; a vista, de minha janela, é de um cinza vandalizado, cercas elétricas e em espiral, fios emaranhados pendendo de postes, janelas quebradas há anos e nunca restauradas, entre outras minúcias desagradáveis. Escrever, concentrar-me a escrever, a produzir arte, é um ato de rebeldia frente a tudo quanto me rodeia; é, essencialmente, uma recusa terminante e total. E tenho, neste pouco tempo de trabalho, pagado o preço em diferentes moedas. Não há recompensa, não há prospecto favorável e o tempo empregado nestas linhas seria infinitamente melhor empregado, aos olhos do mundo, em qualquer outra atividade. Pois bem, mundo estúpido: nunca me senti os esforços tão honrosos quanto agora!

____________

Leia mais: