O risco de não enxergar o óbvio

A mente analítica, conquanto dotada de grande talento em dar profundidade ao objeto analisado, esmiuçá-lo, encontra dificuldades em visualizá-lo em ambiente dinâmico, interligado e em movimento. De um lado, a facilidade em penetrar e captar a essência das coisas; doutro, a dificuldade em visualizar o conjunto. Resumir ou, por outra, delinear superficialmente é o que essa mente recusa, privando a si mesma de uma visão panorâmica e frequentemente esclarecedora. A necessidade de isolar e aprofundar sempre, além de acarretar muito esforço inútil, pode privá-la de enxergar o essencial.

Ode marítima, de Fernando Pessoa

Que dizer desta Ode marítima? Sem dúvida, a rajada mais potente de uma obra brilhante. Fernando Pessoa, mestre na sutileza poética, na capacidade de deixar no ar o sentido de seus versos, de estimular interpretações ao infinito, de criar um ambiente reflexivo, místico, intrigante e contraditório, de representar com meticulosidade manifestações as mais diversas, faz estourar nessa Ode marítima a sua dimensão mais viva, levando-a ao extremo da euforia. Estruturalmente, uma construção dramática perfeita, uma progressão cujo cume é o êxtase completo e o desfecho retorna ao estado reflexivo inicial, carregando-o de emoção. Tecnicamente, vistosa influência de Walt Whitman, num quase esgotamento de imagens e gatilhos a fim de engendrar com plenitude a atmosfera desejada. O poema cresce e o leitor arrepia, sente-lhe o sangue esquentar, experimenta picos de adrenalina. Extremos fortíssimos, imagens penetrantes em vocábulos que parecem alvoroçados no papel. Quantas obras suscitam parecido? Essa Ode marítima, poema talvez sem par na literatura universal, é a prova de que o gênio Fernando Pessoa está entre os maiores artistas de todos os tempos.

Simbolistas e Augusto dos Anjos

Interessante notar que dois dos três elementos fundamentais do simbolismo segundo a definição de Valéry — stérilité, préciosité —resumem com grande precisão a obra de Augusto dos Anjos. É verdade, diferente de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire, a stérilité de Augustos dos Anjos é decorrente de uma morte prematura, e não de um ato voluntário. De qualquer forma, é admitir: a esterilidade acarretou potência, seja nos franceses, seja em Augusto — este, dono talvez das imagens mais fortes jamais registradas em versos portugueses.

Antagonistas naturais

De um lado, a filosofia da unidade; doutro, a filosofia do acaso. Incompatíveis, antagonistas. E ambas encontram, é verdade, vistosa fundamentação. Privadas, contudo, da certeza, da prova cabal que anularia a argumentação contrária, digladiam-se inutilmente. Como notou Pascal, parece haver no mundo o suficiente para que qualquer um enxergue o que quiser. Dessa forma, a postura filosófica fundamental parece resumir-se no apego ou desapego à incerteza, no apreço aos sinais que podem satisfazer ou não; em suma, na reação do espírito ante o conhecimento adquirido.