Felizes os que não carecem do juízo

Refletir conduz ao juízo e o juízo é insuportável! A mente vê brilhar como nada o pior e aponta, implacável, o veredito. Felizes os que não carecem de passar a régua em todas as linhas, fazer moralismo até em piadas, levando as reflexões às últimas consequências. A existência perde o peso quando se é capaz de calar, cegar, distrair o racional e simplesmente deixar que a vida corra. Aos demais, solidariedade…

Obsessão em Nelson

Tenho pensado muito, muito em Nelson Rodrigues, o primeiro e talvez mais importante de meus mestres. A ausência de uma aposentadoria, as doenças, as censuras, as tragédias… tudo isso moldando uma concepção de mundo. O olhar triste e atento à natureza corrompida do homem. A sucessão inacreditável de desditas, o envelhecer acompanhado de seguidos rompimentos, a coragem para trilhar rumo à morte. E ainda assim, o bom humor, a ironia imortal e a capacidade de enxergar luz onde parece não haver.

Meses de inércia

Três meses sem compor um único e solitário verso. A mente fervendo como nunca. Como desculpa os outros trabalhos e o estúpido imperativo da necessidade. Em mais de uma oportunidade, a sensação de explosão próxima, o apelo da mente por gravar em arte o juízo potente e terrível, o grito em forma de verso. E, lamentavelmente, o silêncio, a inação racional a deixar que o impulso abrande. Com efeito, ele abranda — e o destino tem nova chance. Debalde, contudo, pois certamente voltará…

Dia e noite…

Em pensamentos, o movimento último e extremo não executado em vida. E as consequências, todas elas afligindo e pulsando tão logo a cabeça pouse e os olhos fechem. A necessidade de aniquilar, jamais se esquecendo de uma única palavra, levando a cabo todos os impulsos violentos controlados pelo racional manifestando-se, todas as noites, enquanto reina o silêncio no exterior. Em vida, em arte, o esforço por abrandá-los, o esforço por lhes mascarar o caráter monstruoso, o esforço pelo predomínio da consciência. E assim a mente submerge em dupla vida.