O atributo que se tornou mais característico do português escrito é a utilização apurada dos pronomes, o que já não se vê no português falado, salvo em algumas poucas regiões. Tal domínio, sozinho, pode transformar um texto canhestro em elegante, algo ostensivamente perceptível em traduções. O tradutor inabilidoso, o escritor inabilidoso, não conseguem se valer dos pronomes para dotar os períodos da concisão e do estilo possibilitados pelo idioma, e o resultado é que um discurso gramaticalmente correto, uma tradução semanticamente precisa, soem como mal escritos em português. Talvez, não haja outro elemento da técnica que transmita mais inteligência a um texto, nem outro elemento sobre o qual o estudo dos clássicos mais tem a instruir.
Categoria: Notas
O difícil na construção de uma personalidade…
O difícil na construção de uma personalidade é que, grande parte do tempo, tem-se a sensação de estar agindo impelido pelas circunstâncias, cumprindo obrigações inevitáveis, e não exercendo a volição. Por causa disso, vive-se sem dar o peso devido ao ato, e não se encara a rotina como consequência de uma escolha pessoal. Sem dúvida, nisto consiste a maior vantagem psicológica de sadhus e sannyasis: queimando todos os laços materiais, já não se podem sentir impelidos a nada, nem forçados por ninguém. Mas não é preciso ser tão radical para perceber que, afinal, o crescimento pessoal aparece com a responsabilidade, e esta implica a consciência de que, o tempo todo, é possível escolher.
Algo bonito de se ver é o sujeito…
Algo bonito de se ver é o sujeito, já maduro, já dispondo de méritos invejáveis e já reconhecido excelente, pôr-se como um completo novato em alguma atividade, e exibir a humildade característica daquele que sinceramente quer aprender. Não é raro que, fazendo isso, ele pareça a renovar a própria vida, deixando que lhe brote na face a alegria autêntica de ser novamente um aprendiz. A quem observa, a cena é demasiado estimulante. E fica a certeza de que a vida só é devidamente apreciada por aqueles que se permitem continuamente aprender.
Embora seja muito mais satisfatório…
Embora seja muito mais satisfatório e estimulante deixar-se guiar estritamente pelo interesse à medida que se avança nos estudos, não há dúvida de que, às vezes, tal postura faz brotar um sentimento de estagnação. Isso porque, adotando a via contrária, isto é, quando se realiza um estudo sistemático e aprofundado numa área específica do conhecimento, a evolução se faz demasiado evidente. A terminologia, de absorvida, passa a ser corriqueira; mais e mais detalhes são assimilados, em ato que fortalece também a base da disciplina, a qual parece tornar-se cada vez mais óbvia. Porém, neste percurso, costuma chegar-se a um ponto em que se nota o grande distanciamento já consumado daquele estímulo inicial motivador do interesse. Então, o impulso filosófico, por essência sintetizador, reclama da inutilidade da especialização e pede abrangência. Assim, a tendência é adotar a postura anterior. Estagnação e inutilidade, pois, são os fantasmas que o estudante tem de aprender a espantar.