A função mais nobre do humor consiste em surgir como defesa e como alívio quando o desespero parece inevitável. É o que atestam biografias inúmeras, como a deste tenente polonês Slavomir Rawicz, preso e conduzido à Sibéria pelos soviéticos. Comove vê-lo referir-se com gratidão máxima aos presos que, em meio a miséria, angústia e fadiga, sacavam alguma piada. Dizendo assim, parece pouco. Mas, ali, o riso saía como um milagre, revigorante e purificador. Talvez, o verdadeiro humor se manifeste apenas nos momentos de maior tensão; ao menos é neles que, definitivamente, prova o seu valor.
Categoria: Notas
Talvez o elemento mais comum em biografias…
Talvez o elemento mais comum em biografias frustradas de homens talentosos seja a incapacidade de frear um curso de acontecimentos indesejável, a incapacidade de, enfim, contrariar o conveniente em benefício da própria afirmação. Nisto, se acabam desperdiçando. O talento não vem acompanhado da responsabilidade para consigo; e esta, se não desenvolvida e cultivada, fará com que as grandes possibilidades se dispersem num grande lamento.
Há autores com um poder de assimilação…
Há autores com um poder de assimilação verdadeiramente impressionante, e percebemos que muitas vezes não saberiam definir se as ideias que expressam são suas ou provenientes das referências que deixam transparecer. Decerto, o verdadeiro aprendizado tem aí algo de sua fundamentação. Uma ideia, para ser apreendida, tem de ser sentida como própria, ainda que posteriormente abandonada. Idealmente, porém, o maior intelectual será aquele que tudo abrange e tudo absorve; assim, nada lhe sendo estranho, é capaz de expressar tudo como seu.
Se fosse possível perceber, sempre que algo…
Se fosse possível perceber, sempre que algo é perdido, aquilo que necessariamente se ganha com perdê-lo, a vida seria encarada de maneira muito diferente. Em primeiro lugar porque haveres pesam, consomem e acorrentam: a tristeza em perdê-los seria compensada pela consciência da liberação. Mas, sobretudo, porque perceber essa ambiguidade, às vezes velada, mas onipresente, é situar-se muito melhor numa realidade que simultaneamente priva e possibilita, deixando, sempre, espaço para o fortalecimento e para a afirmação.