Já se disse que o escritor é aquele…

Já se disse que o escritor é aquele para quem a vida não basta. E, sem dúvida, satisfazer-se com a experiência é um elemento variável da psicologia individual. O mais das vezes, a vida que se leva é medíocre, desprovida de eventos se não marcantes, sobressalentes à experiência comum. Alguns não podem aceitá-lo, quer pelo brio, quer por uma vontade inata de mais conhecer e mais experimentar. Aqui, sai a literatura não como consolo, mas como necessidade, como completando as inumeráveis lacunas da experiência. Sem ela, parece a vida insuportavelmente desinteressante. Novamente, trata-se de uma questão de psicologia individual, e jamais a entenderão aqueles que não apresentam semelhante disposição.

A escrita atinge um novo patamar…

A escrita atinge um novo patamar após adquirir feitio de causa perdida. Como ocorre com estas, o esforço se enobrece e os farsantes renunciam diante da perspectiva infeliz. O trabalho, contudo, ganha inegável autenticidade, a qual se afigura como um prêmio mais valioso do que aquele que inicialmente se poderia esperar. A expectativa frequentemente encurta a vida da dedicação; quando, porém, nada se espera, o próprio esforço acaba se convertendo em fonte de satisfação.

O desterro, inspirador deste sentimento…

O desterro, inspirador deste sentimento que já motivou algumas das melhores obras literárias de todos os tempos, guarda algo de invencível e inexplicável. A realidade do sentimento não se questiona, mas ocorre que, muitas vezes, o desterro parece oferecer ao desterrado condições muito superiores àquelas vivenciadas na terra natal. Mesmo assim, a mente não se convence, nem abandona a convicção de que antes gozava de algo especial. Parece haver uma ligação que não se rompe, que o tempo só fortalece e que a distância transfigura num dever. Nem todos podem experimentá-lo, mas há de se reconhecer que, quando verdadeiro, é um sentimento muito nobre.

Ao escritor que alimenta internamente…

Ao escritor que alimenta internamente o sonho da glória literária, deve ser muito difícil suportar o status miserável proporcionado pela literatura, caso não haja condições bem diversas que lhe confiram algum prestígio social. Decerto, o mais provável é que algo muito diferente da “glória” terá de experimentar. Talvez seja necessário algum talento para lidar com a condição de medíocre aos olhos de todos, ao mesmo tempo que se percebe que medíocres são, em verdade, todos os outros. É o caso de Lima Barreto, a quem parece ter faltado semelhante talento, embora não tenha faltado a percepção agudíssima do fenômeno. A verdade é que não há humilhação nem injustiça neste desprezo, e é bom que o escritor aprenda a manejar, e até se divertir com o constrangimento, para evitar ludibriar-se com os pareceres de um falso juiz.