Para o espírito, não há estagnação…

Para o espírito, não há estagnação: ou evolui, ou deteriora, mesmo sem o perceber. E nada parece prejudicá-lo com mais eficácia que o passado, quando não se aprende a vencê-lo. Os exemplos são infinitos daqueles que, se não pararam no tempo, não se deixam despegar de algo que já passou. Daí que o espírito se descola da realidade, e o resultado é degeneração. Há experiências cuja intensidade, jamais revivida, parece determinar o ser. Porém, visto que a vida é movimento, a “determinação” sempre repercute, quer para o bem, quer para o mal.

Está dito que o jovem poeta Merejkovski…

Está dito que o poeta Merejkovski, aos quinze anos, pediu uma opinião a Dostoiévski sobre a qualidade de seus primeiros versos. Após julgar que não valiam nada, o experiente romancista justificou-se dizendo que, para escrever bem, é preciso sofrer. Sofrer! Decerto, há muita verdade nesta afirmação: nada de importante se compreende antes de uma boa dose de sofrimento, e portanto nada de importante se pode expressar. Mas o curioso é ver que nas agruras, exatamente nelas, brota uma centelha como resposta ao desafio circunstancial. A mente, atingida, sofre e precisa superar a situação. Então tem de compreendê-la, dimensioná-la, absorvê-la. O esforço afinal a engrandece. O sofrimento deixa uma marca, e o resultado traz uma lição. É experimentando-o diversas vezes que o escritor se capacita a ter algo autêntico a dizer.

O sentido de dever é, desde que posto em prática…

O sentido de dever é, desde que posto em prática, o combustível mais eficiente para uma vida satisfatória. Além dele, porém, é preciso destacar os efeitos esplêndidos experimentados por aqueles que mantêm aceso por toda a vida o desejo de aprender. Não importa a idade, é senti-lo e os dias amanhecem diferentes, acorda-se com outra motivação. E todo o processo de aprendizado, com os seus pequenos progressos, a superação de dificuldades, a ampliação do horizonte de estudo, torna os dias mais estimulantes, e gera a expectativa do amanhã. Satisfação semelhante, tão duradoura e tão saudável, talvez não se encontre de outra maneira.

É sempre admirável quando o historiador…

É sempre admirável quando o historiador ou o biógrafo conseguem demonstrar-nos com clareza o homem que existe por detrás da obra. É esta uma tarefa dificílima, repleta de armadilhas que podem comprometer todo o esforço de compreensão. Mas, quando bem-sucedida, entrega ao leitor um material de valor inestimável, não apenas quanto à conexão entre vida e obra do qual depende, mas também quanto ao painel maior da existência. Vemos ali hábitos, crenças, conflitos, ideias, predisposições, e quer nos identifiquemos com eles, quer não, aumentamos nosso arsenal de possibilidades, compreendemos a vida melhor. É um material que nos possibilita, em suma, aprender com o exemplo de um homem real.