A vida é sempre mais interessante quando se arrisca, e se vive consciente de que agir é arriscar. Mas ocorre, às vezes, que a má sorte é tanta, que os sucessivos baques vão se acumulando de forma insuportavelmente decepcionante, e logo se perde aquele mínimo de esperança sem o qual não se pode arriscar. Tal desânimo é a morte do espírito, e é sem dúvida muito mais proveitoso passar a vida como um louco iludido do que a ele sucumbir; pois o louco ao menos age, e de sua ação se pode retirar algo de bom.
Categoria: Notas
Realmente, é preciso ter muito cuidado…
Realmente, é preciso ter muito cuidado com uma história geral de qualquer coisa, porque necessariamente ela mais irá esconder do que revelar. Decerto, disso não se pode concluir que seja inútil, mas é preciso ter consciência de que para cada uma das conclusões que porventura delineie, haverá exemplos contraditórios na história específica dos eventos abordados. Assim, embora não se possa desprezar o esforço tremendo na realização de uma história geral, é evidente que a melhor história é sempre a micro-história, e é nela que qualquer estudo sério se deve concentrar.
São raríssimas as biografias nas quais não se encontra…
São raríssimas as biografias nas quais não se encontra ao menos um momento em que um evento externo impremeditado mudou positivamente a situação do biografado. Sempre o encontramos, embora seja verdade que por vezes a mudança não perdure. A sorte, porém, ali está manifesta, dando azo a que a mudança cristalize e transforme — o que nem sempre acontece. Mas é curioso notar que, às vezes, tal evento se dê no ocaso da vida, e suporíamos acompanhado da sensação de que veio tarde. Tal sensação nunca a encontramos e, privilegiados por poder mirar a biografia inteira, concluímos que seria cem por cento despropositada.
É difícil imaginar um estado prolongado…
É difícil imaginar um estado prolongado em que a personalidade não seja perturbada por elementos conflitantes. Tais perturbações, de ativação externa ou interior, não podem ser totalmente vencidas. O que elas podem, decerto, é ser toleradas, analisadas, absorvidas. E a personalidade faz-se com quanto perdura após o confronto com elas. Meditando-se um pouco, às vezes causa indignação notar que frequentemente o choque é gratuito e prejudicial. Mas aí se percebe que a personalidade é um esforço, e vê-se o mérito em persistir-lhe na depuração.