O sujeito gosta de café. Por anos, por uma vida inteira, toma-o todas as manhãs e sente prazer. Agrada-o o golpe quente na língua, o sabor que permanece na boca, o estímulo mental evidente, do qual depende para trabalhar. Crê-se apreciador da bebida, como crê nos efeitos benéficos reais que ela traz ao seu cotidiano. Em suma: o café o deixa feliz. Então chega o dia em que prova um café de qualidade superior, que lhe deixa o paladar extasiado. Quando retorna ao velho café que bebia, percebe claramente tratar-se de lixo. Investiga a respeito e descobre tratar-se de lixo deveras, no qual o café real, mas em grãos de pior qualidade, é misturado às impurezas mais variadas, entre elas algumas inomináveis, e o todo é torrado além da conta para que lhe sejam mascarados os defeitos. Deste dia em diante, o mesmo café, a bebida tão apreciada que lhe deu prazer por toda a vida, nunca mais o satisfará. E a filosofia, como o faz sempre, escancara a pergunta: vale a pena o conhecimento?