Talvez não haja esforço que possibilite…

Talvez não haja esforço que possibilite a nós, modernos, uma real compreensão do homem medieval. Todo ele é-nos intrincado, mas parece o seu traço mais incompreensível ser aquele que Huizinga assim descreve:

No espírito medieval, todos os sentimentos mais puros e elevados foram absorvidos pela religião, enquanto os impulsos sensuais e naturais, deliberadamente rejeitados, tiveram de se rebaixar ao nível de uma mundanidade pecaminosa. Na consciência medieval coexistem, por assim dizer, duas concepções de vida: a concepção devota, ascética, que se apropria de todos os sentimentos morais, e a concepção mundana, toda ela deixada ao diabo, que se vinga terrivelmente. Se uma das duas predomina por completo, então surge o santo ou o pecador irrefreado; mas em geral elas se mantêm num equilíbrio instável, com oscilações da balança. Veem-se pessoas apaixonadas, cujos pecados em flor por vezes fazem sua devoção transbordar e explodir ainda mais violentamente.

É uma tensão muito mais forte, que embora extreme o vício, torna mais autêntica a virtude que se lhe contrapõe. É um comportamento tão apaixonado, e sobretudo tão sincero, que nos obriga a admitir que o homem moderno, comparado ao medieval, quiçá se destaque pela “moderação”, mas com certeza por um assombroso cinismo.

É sempre um grande desafio equilibrar…

É sempre um grande desafio equilibrar as tensões conflitantes quando uma tendência predominante se manifesta no espírito, quer compelindo à exteriorização, quer à interiorização. A personalidade frequentemente escancara esta dificuldade, cujo problema maior não é seguir ou afastar-se da tendência inata, mas lidar com a oposta, a qual frequentemente se apresenta como dever. Dever, então, agir contra a própria natureza, fazer de contínuo o mais penoso, sob ameaça constante de condenação pela consciência! Talvez seja esta a maior utilidade das biografias: registrar os rebentos deste conflito na vida daqueles para os quais viver se contrapõe a obrar.

Simultaneamente ao fato de que ao escritor…

Simultaneamente ao fato de que ao escritor, hoje, parece impossível esboçar uma linha sem o auxílio de um computador, isto é, sem esta maravilhosa ferramenta que possibilita o dispor de uma montanha de dados organizada, acessível e, sobretudo, na qual se pode pesquisar qualquer coisa em segundos, concorre o fato de que nem esta, nem qualquer automatização é bem aproveitada quando não se sabe realizar o processo sem ela. Quer dizer: é preciso aproveitar-se, mas não depender dela para que o trabalho seja feito; o que significa, em outras palavras, entender suas possibilidades e limitações.

Vencida a admiração inicial…

Vencida a admiração inicial, imaginar os estados de êxtase descritos por Nicolae Steinhardt quando encarcerado é algo assaz instrutivo. Após deixarmos de questionar a plausibilidade dos relatos, ou melhor, após as aceitarmos, percebemos que é justamente na carência mais extrema, no sofrimento mais agudo que se pode encontrar o alívio supremo. Quando a vida se reduz aos seus rudimentos, vê-se claramente o mais importante, o quanto há nela de supérfluo, aquilo que a justifica e aquilo que se há de conservar. Mas a graça, sobretudo, é constatar que a miséria mais extrema e mais sufocante não é absoluta, nem a última palavra.