O cristianismo acerta quando recomenda leniência ante os erros, quando diz ao homem que não se permita aprisionar nas garras demoníacas do remorso. Em verdade, sem tal leniência, a carga da vida torna-se facilmente insuportável. Mas além disso, o espírito deixa-se impregnar de um orgulho injustificável, de uma incapacidade de reconhecer em si a falibilidade, com a qual não se pode verdadeiramente evoluir.
A árvore se conhece pelos frutos…
A árvore se conhece pelos frutos; mas o ato humano, não sendo uma árvore, melhor se conhece pela intenção. Está muito bem dito que não se apanham uvas dos espinheiros, e que figos não brotam de uma erva daninha; contudo o homem, sujeito sempre em maior ou menor medida ao incontrolável, nem sempre produz o que dele se espera ou aquilo que quer. Daí que, em seu caso, ater-se aos frutos não basta, e pode muitas vezes conduzir-nos ao engano.
Por trás de todo estalo decisivo…
Por trás de todo estalo decisivo, há sempre a experiência sem a qual não se pode apreendê-lo, justificá-lo e aproveitá-lo. Disso se percebe que, quase sempre, o estalo não é senão a percepção súbita da finalidade da experiência precedente; quer dizer: o sentido daquilo que se experimentou como que se revela à consciência, e a partir deste momento o ato reveste-se de confiança e resolução.
São muitos os exemplos de belas obras iniciadas…
São muitos os exemplos de belas obras iniciadas apenas tardiamente, mas é raro encontrar um grande escritor que não se tenha aventurado na escrita bem antes de ser capaz de produzir algo de valor. Em verdade, o capacitar-se a fazê-lo é justamente praticar até que adquira o domínio da prática, é experimentar, errar e aprender. O que por isso não se adquire é a bagagem do estudo e da experiência; mas por isso, e só por isso, adquire-se a capacidade de escrever bem.