Dificilmente se consegue direcionar a vontade e controlar quando se alcançará aquilo que se quer. O mais das vezes, quando o tempo não faz com que o intento esmoreça, seja este de longo prazo e, então, virá apenas quando tiver de vir. Salvo engano, é Swami Sivananda quem diz que os desejos mais nobres só se realizam ao renunciá-los, após muitas lágrimas e grande desgaste. Seja como for, a imersão no processo às vezes distrai a mente do avanço que faz; progride-se imperceptivelmente, quando não se experimentando a sensação de estagnação. Quando menos se percebe, atingiu-se o objetivo desejado ou, em casos mais belos, este simplesmente aparece, como por graça.
O que há de mais divertido na escrita
O que há de mais divertido na escrita é a possibilidade de individualizar completamente o processo, de maneira a fazer com que o elemento subjetivo atue como potencializador. Na maioria das ocupações, isso não é possível, e a eficácia do processo costuma demandar uma execução sequencial objetiva, algo que, com o tempo, tende a desestimular. Mas o escritor pode muito bem habituar-se a passar um café, ou acender um cigarro nos momentos anteriores ao trabalho, e presenciar, efetivamente, que ao fazê-lo as ideias começam a se mover. No seu processo criativo, há lugar para todas as suas manias, e isso produz uma enorme satisfação.
Um aspecto negligenciado, mas que demarca…
Um aspecto negligenciado, mas que demarca muito bem a evolução de uma personalidade, é a sucessão de rompimentos, conscientes ou não, que vai solidificando aquilo que se pode chamar de passado, e aumentando a lista daquilo que já se superou. Aqui, entram as amizades. Perdê-las sem traumas, de bom grado quando não também voluntariamente, é sinal de que se caminha em alguma direção. Assim, o não perdê-las deveria preocupar, como o deveria a ausência prolongada de rupturas significativas, por talvez sinalizarem uma indesejada estagnação. Quando se avança, algo sempre se deixa para trás.
Às vezes é difícil controlar o forte desinteresse…
Às vezes é difícil controlar o forte desinteresse para com a literatura e seus artifícios, o qual surge após um contato com o extraordinário numa história real. Vem à mente toda a crítica de Northrop Frye, sistematizadora de variadíssimas possibilidades criativas, divisões em gêneros, modos, usos particulares de símbolos, mitos, etc., etc. Tudo isso, enfim, assaz interessante, mas que parece nada diante de uma simples experiência real. Surge a pergunta: para que se lê e para que se estuda? E então percebemos que a literatura, como qualquer ciência, quanto mais as estudamos sob um prisma estritamente técnico, mais deixamos de lado aquilo que verdadeiramente justifica uma criação. Muito, muito difícil não querer mandar para o diabo todos esses expedientes e recolher-se para sempre ao silêncio e à meditação.