Há ideias que amadurecem e ideias que o tempo faz apodrecer. A todas, contudo, parece o tempo benéfico, ficando a exceção apenas para aquelas que irrompem exigindo a imediata transposição ao papel. Mas estas, se bem analisadas, talvez não sejam exatamente ideias, ou somente ideias, mas estados de espírito passageiros que, desperdiçados, podem jamais retornar.
O patriotismo e o antipatriotismo
Se algo está certo é que o patriotismo e o antipatriotismo ultrapassam o terreno da racionalidade e fundam-se, sobretudo, no temperamento, o qual é moldado mormente pela experiência. Em resumo, o patriota é alguém cujo senso de pertencimento se manifesta; já o antipatriota é alguém que se sente deslocado. São posturas psicológicas distintas, fundamentadas em sensações distintas, e que não passam disso: posturas psicológicas provenientes de sensações.
O verdadeiro estudante é o professor
O verdadeiro estudante é o professor. Pois ensinar é, em essência, também estudar; mas estudar com uma profundidade que só se alcança pelo ensino. Ou melhor: é o próprio ensino que a exige, posto que traz à tona uma infinidade de problemas que impelem a pesquisas adicionais, inimagináveis ao estudante comum. Assim que o professor, caso não seja um mau professor, quanto mais ensina, mais se aprofunda na matéria, mais toma conhecimento de seus detalhes, mais cristaliza a teoria em sua mente e mais se torna apto a ensinar, pois descobre aquilo que o estudante precisa aprender.
“O ordálio mais tremendo”
É sem dúvida impressionante que Carpeaux tenha dito, em entrevista, considerar o fato de ter aprendido “mais ou menos” a língua portuguesa “o ordálio mais tremendo a que a vida me submeteu”. Quer dizer: tal foi dito por um eruditíssimo poliglota, versado em praticamente todas as línguas europeias: algo que evidencia a imensa barreira que há entre estas e o português. Credita Carpeaux ao seu conhecimento de latim o conseguir adaptar-se ao novo idioma, e disso se pode inferir que a sintaxe vernácula apresenta complicações terríveis a um moderno não versado nas línguas antigas. E além disso, a prosódia, os indomáveis e imprevisíveis fonemas, a ortografia confusa, e por aí vai. A dizer a verdade, talvez seja algo assaz positivo o ter-se em português preservado grande parte do brilho da sintaxe latina; contudo, não se pode negar que o correr dos séculos demonstra que o português, ao contrário das demais línguas europeias, afastou-se em vez de aproximar.