Os totalitarismos não são ideologias políticas

Os totalitarismos não são ideologias políticas, mas conluios de psicopatas que objetivam um poder só alcançado mediante a destruição massiva da consciência. Por isso alvejam, acima de tudo e com máxima violência, a dignidade humana, aquilo por onde esta se manifesta e aquilo de que se alimenta. Destarte só passam numa sociedade corrompida, cujos indivíduos abdicaram completamente do próprio valor. A dignidade nunca hesitará entre o totalitarismo e a cadeia, entre aquele e o fuzilamento. Contudo, há de se notar que a ela, salvo em raros casos, não é concedido escolher entre essas opções. A dignidade o mais das vezes se esvai à medida que o totalitarismo avança, e este, ardiloso que é, o faz paulatinamente, através de pequenos espólios, pequenos desmandos, de forma que não dê a entender que vagarosamente se impõe. Um passo de cada vez e, a cada êxito, um novo passo adiante. Assim que, em verdade, é essa uma guerra travada pelo indivíduo em pequenas batalhas, pequenas escolhas, cujo único resultado que deveras lhe importa — aquele sobre o qual tem controle — é corromper-se ou não.

O experimento comunista

Apesar de toda a extensa documentação a respeito do horror do experimento comunista sobre a terra, um horror tão absoluto que torna quase impossível uma investigação prolongada sobre o tema, visto que investigá-lo é deparar-se com relatos infinitos de privações, miséria, tortura, corrupção moral e aniquilamentos tão variados quanto a imaginação humana, é inacreditável notar que a palavra comunismo não só não desperta o terror condizente, mas a muitos é inócua e a outros ainda seduz. Este fato é uma exclamação tão acachapante que tem de, obrigatoriamente, ser evidência de uma profunda lição. A nível coletivo, o comunismo resumiu-se a uma carnificina que elevou a miséria a um patamar inédito; a nível individual, resumiu-se à degradação. Neste deplorável experimento, o que se viu foi o florescimento daquilo que há de mais traiçoeiro e selvagem, a expansão desenfreada da crueldade e da opressão; o indivíduo médio foi submetido a uma vida de miséria e privações involuntárias, espólio, tortura psicológica a níveis inconcebíveis, de forma que sua própria sobrevivência passou a ser condicionada à submissão. Fuzilamentos incessantes, sem motivo nem piedade, mas que, diante do cenário geral, mais pareceram um livramento aos fuzilados… E tudo isso, embora massivamente registrado, embora ao lado de um obituário infinito, parece inútil. Só há uma lição a se tirar: o homem é absolutamente incapaz de aprender.

A manhã é o período mais importante

A manhã é o período mais importante do dia. Produtiva ou improdutiva, feliz ou infeliz, seus efeitos contagiam e se alastram pelas horas seguintes, evidência de que ganha-se um dia pela manhã. Por isso, é prudente que neste período cumpra-se a tarefa mais importante do dia, vencendo-a o quanto antes para que a tarde seja contagiada desta satisfação. Fazer o contrário é agir contra si mesmo: protelando-se o mais importante, gera-se ansiedade; cumpri-lo ao fim do dia é permitir que o cansaço da jornada, caso não estimule um novo adiamento, prejudique a sua execução. Duzentos outros motivos recomendam as primeiras horas do dia como período em que as atividades que exijam maior concentração devem ser executadas e, por isso, talvez o maior segredo de uma rotina estimulante e satisfatória consiste no bom emprego da manhã.

A melhor solução para vencer…

Sem dúvida, a melhor solução para vencer o penosíssimo trabalho de revisão é a de Fernando Pessoa: não revisar nada, nunca, e jamais se propor a tarefa de dar uma forma definitiva para aquilo que se escreveu. Tão óbvio, tão evidente… e ainda assim parece a mais disparatada das decisões. Se toda profissão tem suas agruras, algumas só suportáveis a longo prazo por aquele dotado de vocação para exercê-la, ao escritor talvez nenhuma seja mais frequente que o deparar-se com um trabalho ruim. Diferentemente de outras profissões, em que o resultado e a eficácia do trabalho são facilmente mensuráveis, e daí portanto mais facilmente se percebe uma evolução na técnica e os efeitos positivos da experiência, o trabalho do escritor parece sempre fadado a ser visto como insatisfatório por suas próprias lentes, algo que se torna violentamente evidente no processo de revisão. Revisando textos longos, aprende-se que os erros mais elementares, na escrita, são invencíveis, porque, entre outros variados motivos, a atenção nunca se mantém constante por um longo período. E assim que, para a sua satisfação psicológica, o melhor é que o escritor jamais revise; do contrário, será forçado a tomar regularmente duríssimas lições.