A melhor solução para vencer…

Sem dúvida, a melhor solução para vencer o penosíssimo trabalho de revisão é a de Fernando Pessoa: não revisar nada, nunca, e jamais se propor a tarefa de dar uma forma definitiva para aquilo que se escreveu. Tão óbvio, tão evidente… e ainda assim parece a mais disparatada das decisões. Se toda profissão tem suas agruras, algumas só suportáveis a longo prazo por aquele dotado de vocação para exercê-la, ao escritor talvez nenhuma seja mais frequente que o deparar-se com um trabalho ruim. Diferentemente de outras profissões, em que o resultado e a eficácia do trabalho são facilmente mensuráveis, e daí portanto mais facilmente se percebe uma evolução na técnica e os efeitos positivos da experiência, o trabalho do escritor parece sempre fadado a ser visto como insatisfatório por suas próprias lentes, algo que se torna violentamente evidente no processo de revisão. Revisando textos longos, aprende-se que os erros mais elementares, na escrita, são invencíveis, porque, entre outros variados motivos, a atenção nunca se mantém constante por um longo período. E assim que, para a sua satisfação psicológica, o melhor é que o escritor jamais revise; do contrário, será forçado a tomar regularmente duríssimas lições.

O que há de próprio e distintivo…

Embora esteja evidente o que há de próprio e distintivo na cultura brasileira, mais evidente é a mania de querer imitar outras culturas, especialmente naquilo que elas têm de pior. Essa importação de defeitos, que só tem a se acentuar com a cada vez mais intensa globalização, parece fundada numa necessidade injustificável de aceitação, que renuncia à autenticidade e estabelece um elo falso visando agradar. As nações têm suas particularidades, e o que chamamos tradição — esse bicho que não é nada sem o tempo — se estabelece, primariamente, como a capacidade de reconhecê-las, algo que decerto carece esse nosso jovem país.

Na literatura brasileira, nada impressiona tanto…

Na literatura brasileira, nada impressiona tanto quanto os trajes que vestiam as personagens até meados do último século. Chega a ser inverossímil que a moda europeia tenha atravessado o oceano e encontrado aceitação numa terra em que o sol, sempre pujante e presente, não faria mal se desenhado na extremidade superior de todas as páginas que este solo produziu. E então parece-nos inconcebível que haja uma literatura em que as personagens manifestem sentimentos que não um calor intolerável, uma vontade de passar a vida debaixo de um chuveiro ou, no mínimo, de ligar um ventilador. É realmente impressionante…

A despeito de toda aflição inerente…

É verdade que, a despeito de toda aflição inerente da escrita, organizar o pensamento, moldá-lo em palavras, variando formas, testando novas possibilidades e vestindo-o diferentemente a cada nova peça, tem o seu quê de prazeroso. Despretensiosamente, é possível aproveitar e tomar gosto pelo processo, sem o qual não se chega longe nas letras. O lamentável é que a literatura não se resume a estes momentos em que o pensamento parece matéria inerte e a função do artista simplesmente conformá-lo, como se, com fazê-lo, o artista se não vinculasse a ele de forma que a expressão aparenta sempre imperfeita e sempre a representar uma dolorosa separação.