Não há tarefa mais ingrata que ensinar…

Não há tarefa mais ingrata que ensinar àquele que não deseja aprender. O aprendizado tem de partir de um desejo, motivado, por sua vez, na consciência de uma necessidade. Do contrário, frustram-se o professor e o aluno. Todo ensino se deveria afigurar como um ato de generosidade e, consequentemente, ser estimulante da gratidão. Assim teríamos um professor satisfeito pela obra e um aluno ciente da importância da educação. Este, futuramente, poderia encontrar no próprio ensino o pagamento da dívida que contraíra ou, noutras palavras, ensinaria para expressar-lhe a gratidão. Deste ciclo depende toda educação verdadeira, e por ele notamos que esta é, fundamentalmente, um problema moral.

De vez em quando, surgem pessoas…

Diz Evanildo Bechara, em sua Moderna Gramática Portuguesa:

De vez em quando, surgem pessoas que querem ver expurgadas dos dicionários certas palavras depreciativas de povo ou localidade (como judiar, baianada e outros). É excesso de sentimento a que a História não se curva, nem o povo leva em conta, porque, no uso do termo, não entra nas minúcias históricas do pesquisador, nem procura, usando a palavra, fazer juízo específico a respeito do povo ou da localidade.

Que coisa! É este o tipo de comentário que, hoje, não espantaria se colocasse o quase centenário professor numa jaula, após arruinar-lhe por completo a reputação e aviltar-lhe publicamente a obra. Contudo, se algo é atestado pela história, é que ideologia ou censura de nenhuma espécie pode competir com uma língua viva, falada e moldada majoritariamente por aqueles que não dão a mínima para os frequentes delírios de cabeças vazias. É um embate, sem dúvida, divertido de se ver, cujo resultado é sempre o mesmo e nos dá uma justa dimensão da vitalidade e da independência de um idioma.

O escritor estará perdido caso não sinta…

O escritor estará perdido caso não sinta uma atração irresistível pela língua, que o obrigue a estudá-la ainda que não queira, numa prática cuja abstinência se manifeste num profundo desconforto. Se é isso predestinação, não faz diferença. O certo, porém, é que não suportará os obstáculos e frustrações da profissão caso não se sinta a evoluir pelo estudo prolongado ao infinito, só possível com uma tolerância às letras que melhor se definiria como uma paixão. Se a elas se acorrenta e não se sente à vontade, é preciso que, no mínimo, sinta a satisfação característica do cumprimento de um dever.

Se algo se atingiu pelo enfraquecimento…

Se algo se atingiu pelo enfraquecimento da religião no ocidente, foi o enfraquecimento dos vínculos sociais no nível mais básico. O próximo bíblico tornou-se, mais do que nunca, um estranho, e o sentimento que permeava ou deveria permear uma comunidade, seja ele qual fosse, transformou-se numa generalizada e absoluta desconfiança. Rompeu-se um elo comum sem substituí-lo, e o resultado só poderia ser a segregação. Disso, não se pode concluir senão que o mundo tornou-se um lugar ainda mais hostil.