Todo aquele cujo sonho é a implantação de um totalitarismo ideológico padece, antes de tudo, de ignorância histórica. Se a falta de altivez o impede de mirar um pouco além do interesse imediato, um pouco de juízo o recomendaria não desafiar uma reação imprevisível e incontrolável. Mas a história, sempre, há de fazê-lo pagar, porque é infalível em apontar o totalitarismo como aspiração restrita a canalhas. O curso de uma vida é muito pequeno para as consequências que se lhe podem suceder, e se a ignorância histórica, por vezes, pode não comprometer a curto prazo, um pouco de paciência demonstra que, enfim, ela sempre compromete.
O indivíduo comum só tomaria consciência…
O indivíduo comum só tomaria consciência da importância dos valores e condições que lhe foram legados caso pudesse sentir, na carne, tudo quanto foi sofrido pelos seus antepassados. Algo, pois, impossível. Poucas palavras são, por exemplo, tão secas como “liberdade” quando pronunciada em países livres. A semântica esconde o volume de sangue derramado para conquistá-la e, para que cidadãos livres a compreendessem, seria preciso que vivenciassem a sua ausência. O mesmo se dá em muitos outros casos, e disso percebemos que, quando a história e a educação lhe são inúteis, é ridículo falar neste tal “progresso”.
Dois escritores sinceros deveriam cultivar…
Dois escritores sinceros deveriam cultivar mutuamente um sentimento semelhante ao que deveria haver entre dois adversários políticos bem-intencionados: um sentimento de respeito e identificação. Em ambos os casos, porém, são raríssimas as exceções que sobrepujam a mesquinharia corriqueira. Deixando de lado superficialidades como estilo, escolas, gerações, salta aos olhos o fato de que dois escritores, sejam eles quais forem, possuem um elo que os diferencia do restante dos homens, ambos fizeram uma escolha idêntica perante o problema da existência, e o natural é que tal distinção se convertesse numa afinidade. Muito mais concordam em escolhendo a literatura como veículo de expressão da consciência que divergem em aspectos exteriores da vocação. Admiti-lo, contudo, é dificílimo e parece exigir uma virtude que poucos deles possuem.
O conforto é estimulante da inércia
O conforto é estimulante da inércia, e do desconforto brota a necessidade de expressão. Tal é válido tanto a nível individual, como coletivo. Os grandes temas de todas as épocas são, exatamente, aquilo que mais as incomodava. E tão logo se afigura uma solução, seja pelo costume, seja pela mudança, notamo-lo pelo sumiço da temática na literatura. Aproximamo-nos do indivíduo e encontramos o mesmo: é precisamente do desconforto que nasce toda literatura autêntica. E se assim enxergamos, não há como deixar de mirar as dificuldades sob uma ótica inteiramente nova.