Aqueles que resumem a poesia à técnica têm, atualmente, uma bela oportunidade de enxergar o quanto a técnica, sozinha, é inócua. Em português, talvez não haja poetas mais imitados que Bandeira, Pessoa e Drummond. Há, inclusive, ótimas imitações, imitações que evidenciam habilidade. Mas todas elas parecem carecer de algo, e este algo nos demonstra que não se pode imitar o Manuel Bandeira, o Fernando Pessoa e o Carlos Drummond de Andrade porque, em suma, não se pode ser o Manuel Bandeira, o Fernando Pessoa e o Carlos Drummond de Andrade. Vemos a imitação e, ainda que ela seja boa, é imperfeita — e acabamos, sempre, sempre, preferindo o original ao imitador. Somente a técnica não basta, a poesia exige o estro que deriva do individual.
Uma geração nunca aprende com o passado
“A história se repete” é uma afirmação verdadeira porquanto amparada na absoluta incapacidade humana, atestada por cada geração, de transmitir adiante o aprendizado de suas experiências. Por isso a civilização acha-se sempre à beira dos mesmos colapsos e revoluções pregressas, refém dos mesmos erros, explorada por novas versões das mesmas armas, sujeita aos mesmos esquemas de domínio, aos mesmos tipos guiados pelas mesmas ambições. Uma geração nunca aprende com o passado, e o que aprende com o presente terá de ser aprendido com o presente de novo e de novo pelas próximas gerações.
Não há tarefa mais ingrata que ensinar…
Não há tarefa mais ingrata que ensinar àquele que não deseja aprender. O aprendizado tem de partir de um desejo, motivado, por sua vez, na consciência de uma necessidade. Do contrário, frustram-se o professor e o aluno. Todo ensino se deveria afigurar como um ato de generosidade e, consequentemente, ser estimulante da gratidão. Assim teríamos um professor satisfeito pela obra e um aluno ciente da importância da educação. Este, futuramente, poderia encontrar no próprio ensino o pagamento da dívida que contraíra ou, noutras palavras, ensinaria para expressar-lhe a gratidão. Deste ciclo depende toda educação verdadeira, e por ele notamos que esta é, fundamentalmente, um problema moral.
De vez em quando, surgem pessoas…
Diz Evanildo Bechara, em sua Moderna Gramática Portuguesa:
De vez em quando, surgem pessoas que querem ver expurgadas dos dicionários certas palavras depreciativas de povo ou localidade (como judiar, baianada e outros). É excesso de sentimento a que a História não se curva, nem o povo leva em conta, porque, no uso do termo, não entra nas minúcias históricas do pesquisador, nem procura, usando a palavra, fazer juízo específico a respeito do povo ou da localidade.
Que coisa! É este o tipo de comentário que, hoje, não espantaria se colocasse o quase centenário professor numa jaula, após arruinar-lhe por completo a reputação e aviltar-lhe publicamente a obra. Contudo, se algo é atestado pela história, é que ideologia ou censura de nenhuma espécie pode competir com uma língua viva, falada e moldada majoritariamente por aqueles que não dão a mínima para os frequentes delírios de cabeças vazias. É um embate, sem dúvida, divertido de se ver, cujo resultado é sempre o mesmo e nos dá uma justa dimensão da vitalidade e da independência de um idioma.