Seria interessante que a filosofia retornasse…

Senão sempre, certamente hoje seria interessante que a filosofia retornasse aos primórdios como antídoto à própria deturpação. Para ensiná-la, seria melhor fingir que nada nunca foi escrito e expor conceitos como se o estivessem fazendo pela primeira vez. O professor, então, ensinaria ao ar livre com os alunos sentados em roda, e quando dissesse “ato”, mostraria precisamente o significado desta palavra, de forma que, para o resto da vida, os discípulos tivessem em mente o ato real presenciado, e não cedessem à tentação de aplicar tal palavra em um sentido que se descolasse daquele que o mestre fê-los presenciar. E assim para todas as palavras importantes. É sempre proveitoso garantir a ciência de uma realidade patente para a qual deve se voltar os olhos e sem a qual o raciocínio é um desperdício.

O esvaziamento do sentido das palavras

É divertido observar que, nalguns filósofos, podemos presenciar o esvaziamento do sentido das palavras à medida que os lemos, ou melhor, as palavras, à medida que correm as páginas, deixam de significar aquilo que o dicionário define para cumprirem a função de conceitos subjetivos, que vão sendo trabalhados como se fossem brinquedos de um playground imaginário. Chega um momento em que presenciamos construções impossíveis caso as palavras fossem utilizadas no sentido que possuem, e aí percebemos, primeiro, que o filósofo as deturpou e, segundo, que sua filosofia nada tem a nos ensinar sobre o mundo real.

A psicologia sem alma

Outra de Farias Brito:

Numa coisa andaram acertadamente os psicólogos modernos no qualificativo que deram à sua ciência de “Psicologia sem alma”. Realmente a psicologia dos tratados, feita nos laboratórios de experimentação, com suas descrições anátomo-fisiológicas, com seus quadros demonstrativos, com suas tentativas de medida das sensações e da duração dos atos psíquicos etc., é, não há como negá-lo, e forçoso é reconhecer que a expressão é justa e precisa, “uma Psicologia sem alma”. E isto equivale a dizer uma Psicologia morta; o que significa: uma Psicologia que nos não instrui, nem edifica, que nada nos diz sobre a verdadeira significação da energia que reside em nós: dinâmica puramente exterior, inconsciente e fatal, que em vão se esforça por explicar o espírito em função da matéria, deixando-nos sempre no vazio e no escuro… Muito mais instrutiva é, decerto, a Psicologia dos poetas e dos romancistas, que jogam, é verdade, com personagens fantásticas, mas inspirados na observação dos fatos e criados pela imaginação sob a pressão mesma da vida, senão reais, pelo menos possíveis, sendo de notar que é sempre das próprias paixões, das próprias lutas e sofrimentos, dos próprios sonhos e aspirações, que nos dá o artista, em seus personagens, a descrição viva e palpitante.

É curioso notar que este trecho, que serve de abertura a O mundo interior, data de 1914, anos antes da expansão avassaladora da tal psicologia sem alma, que veio a se consagrar soberana no ocidente. É inútil dizer que uma psicologia como essa não pode, muito antes de edificar, meramente apresentar uma interpretação coesa do que seja o homem e de como este se manifesta: os próprios meios utilizados para tal tornam a tarefa impossível. Ainda que se admita haver uma gama enorme de manifestações que extrapolam o escopo desta “psicologia dos tratados”, o não analisá-las nunca implica ignorá-las, uma vez que se esboçam conclusões sobre o homem a despeito de não considerá-lo em sua totalidade. O resumo: evitando o anticientífico, a psicologia cem por cento científica é também cem por cento fracassada.

O pensamento filosófico, quando não se reduz…

De Farias Brito:

O pensamento filosófico, quando não se reduz a uma mera técnica mental, mas tende a aprofundar-se cada vez mais na intuição da realidade, transforma-se naturalmente naquilo que os antigos chamavam “sabedoria”, tipo de conhecimento que traz em si mesmo o gérmen de uma transformação do homem todo, análogo, senão idêntico, ao domínio da contemplação pura, em que o sujeito se funde com o objeto universal, origem de todas as coisas.

Com isso, o grande filósofo diz o óbvio: a filosofia, para que não seja vã, deve ter uma finalidade prática, isto é, deve concretizar-se através de uma transformação naquele que a adota. Por este simples preceito é possível medir a fecundidade e a autenticidade de uma filosofia. Se não somos capazes de diferenciar, pela conduta, o filósofo de outro homem qualquer, se não podemos enxergar claramente os efeitos práticos de seu pensamento, estamos diante de uma filosofia estéril que não merece muito de nossa atenção.