Por mais que se critique simplificações como o maniqueísmo, o mundo prático permite, e por vezes exige tais simplificações. Quando a boa-fé e a má-fé se confrontam, é fundamental, antes de tudo, denunciá-las. Assim, quando se nota que a maioria das disputas ideológicas resumem-se àquele confronto primário, é preciso atirar para longe as ideologias e ater-se àquilo que, de tudo, é o mais importante; do contrário, entra-se no jogo ardiloso da má-fé.
A virtude é simples e o vício complexo
Certamente já notaram que a virtude é simples e o vício complexo. A virtude não dissimula, e apresenta-se quase sempre banal, chocha, sem graça, o que frequentemente engana sobre sua natureza. Já o vício, é difícil que o enxerguemos, de pronto, como vício: comparando-o com a virtude, nele temos uma apresentação mais charmosa, mais instigante. A virtude é simples porque, para justificá-la, jamais se necessita mais que uma meia dúzia de palavras ou do imediato senso comum; já o vício vale-se de possibilidades mais sofisticadas do argumento, e sua dialética convence justamente pela sofisticação. A reflexão sobre tais qualidades parece sugerir o dualismo entre forma e conteúdo — e as conclusões que tiramos evidenciam, a contragosto, aquela que valorizamos mais.
É proveitoso ao moralista capacitar-se…
Em certa medida, é proveitoso ao moralista capacitar-se a identificar a falsidade de longe, de forma que uma inflexão ou um olhar sejam suficientes reveladores de um caráter. Pragmaticamente, esta capacidade lhe será útil por toda a vida. Há, porém, um efeito colateral inevitável: percebendo-lhe a quase onipresença, tem de ou tolerá-la, ou afastar-se. Se aprendeu a detestá-la, se dela tomou uma repulsão invencível, descairá naquela rara prática hoje taxada de transtorno de personalidade, e ainda que, pelo motivo que seja, acabe cedendo à tortura que se lhe converterá o contato com o mundo, é somente naquela que encontrará a sua paz.
O que a escrita proporciona
O que a escrita proporciona não se alcança pela vida: ação de nenhuma espécie pode igualá-la ou substituí-la. De início, a ordenação e expressão do pensamento — o passo adiante à leitura; a consolidação do aprendizado e do raciocínio. Depois, o caráter reflexivo do processo: ainda que fosse possível discursar pelo tempo que se escreve e sobre aquilo que se escreve, o discurso é radicalmente diferente da escrita por não permitir, ou melhor, por não exigir a revisão, que resume-se a uma reflexão aprofundada sobre aquilo que se ensaiou exprimir e uma decisão quanto à sua expressão mais precisa. Por individual, a escrita incentiva a autoanálise, conjugando-a a uma ação que se materializa no registro do pensamento. Destarte, para aquele que escreve, pode funcionar simultaneamente como desabafo e meditação. Nada disso, porém, expressa os principais efeitos do processo, que assim poderiam ser resumidos: crescimento e transformação.