É muito difícil não se deixar levar pelo misticismo quando este oferece-nos respostas plausíveis para fenômenos que, de outro modo, não parecem haver explicação. Há, é claro, a opção sempre mais simples: negá-los e esquecê-los. Mas, para aqueles seja curiosos, seja atraídos por uma como necessidade vital de respostas, não há opção simples. A princípio, são os olhos abertos; e então a mente a digladiar-se por justificar aquilo que os olhos veem. Aqui o misticismo, posto que inaceitável rejeitar, simultaneamente, os olhos e a razão. O duro é ver que, nalguns casos, a solução mística não tranquiliza senão temporariamente…
É certo que os últimos dois séculos acostumaram…
É certo que os últimos dois séculos acostumaram o homem a uma carga de trabalho impensável noutros tempos. Disso percebemos que, no que tange à literatura, obras de grandes autores tomaram maior vulto: hoje, o natural é que escritores sérios sejam como máquinas de escrever e produzam, caso o tempo permita, dezenas de volumes. Que concluir? Primeiramente, que talvez a fecundidade tenha-se tornado vulgar, por ser quase uma exigência contemporânea; em segundo lugar, que, em decorrência disso, talvez já não se possa associar fecundidade ao velho estro, visto que a primeira tornou-se como automatizada pelo espírito deste tempo; finalmente, que talvez se haja de admitir que tal fecundidade acarrete um vício — vício este que, mais do que nunca, é preciso cuidado para evitar…
A vida seria mais justa…
A vida seria mais justa caso fosse possível planejá-la, ou melhor, caso soubéssemos antecipadamente sua extensão. Então que seria infinitamente mais simples balancear, com inteligência, a prudência e a ousadia, descolando de vez uma possível covardia da primeira e uma irresponsabilidade da segunda. É isso, de qualquer forma, um sonho infantil… e temos de viver no escuro, de forma que as próprias palavras prudência e ousadia muitas vezes esvaziam-se de sentido quando miradas em perspectiva: quer dizer, como taxar de prudente, por exemplo, aquele que poupa dinheiro na véspera da morte? Temos, repetindo, de viver no escuro, e isso significa que nosso desconhecimento pode simplesmente anular os efeitos de nossa razão.
Dedicar-se a sapatos
A vantagem do intelectual que, como Boehme, dedique-se a sapatos durante o dia é escrever aquilo que quiser, quando quiser e como quiser, lendo também aquilo que quiser por quanto tempo quiser, e publicando aquilo que escreveu somente se quiser. Em suma: a liberdade. Não é preciso envolver-se em polêmicas, agradar ou submeter-se a editores e outros escritores, nem lidar com leitores-clientes, nem nada. Há sapatos que servirão sempre como alforria intelectual. Nada há que pague essa autossuficiência e essa despreocupação. Liberdade, enfim, é sempre dignidade.