O filósofo que não consiga ensinar…

O filósofo que não consiga ensinar algo valioso de forma simples a um homem comum deveria aposentar-se. Talvez em nenhuma outra área seja a clareza uma qualidade tão necessária, e uma manifestação mais evidente de domínio sobre a matéria tratada. São muitos os pecados perdoáveis, e muitos os defeitos que sequer arranham o pensamento de um filósofo; mas a partir do momento em que o discurso, através dele, torna o assunto mais confuso, o melhor que faria é retornar em silêncio aos estudos, senão abandoná-los para sempre e buscar uma nova ocupação.

É possível traçar um paralelo entre vidas coetâneas…

É possível traçar um paralelo entre vidas coetâneas e identificar, na imensa maioria das vezes, períodos decisivos que ocorreram em idades muito próximas nos quais se destacaram temas semelhantes. É preciso vê-lo e compará-lo repetidas vezes. Este fato evidente e verificável talvez seja o mais forte argumento daqueles que afirmam haver uma correlação entre o tempo e as existências individuais, especialmente porque se nota que muitos dos temas destacados não se dão em decorrência de uma convenção ou algo induzido pelo meio: repara-se, uma e outra vez, períodos em que se parece manifestar o gênio e períodos em que se parece decidir a sorte. A partir do momento em que se adquire coragem suficiente para assumi-lo, já não se pode mais suportar a ausência do porquê…

Se a linguagem é autêntica, nunca se imita

Se a linguagem é autêntica, nunca se imita. Mas ocorre que um autor autêntico jamais se limita à linguagem. É por isso, aliás, que traduções soam tão estranhas: porque a linguagem é mais que somente palavras. Uma mesma ideia não se veste da mesma maneira em duas línguas, e uma tradução literal quase sempre é insuficiente para traduzi-la. Assim que uma obra traduzida é sempre outra, diferente da original. A linguagem autêntica, pois, é o veículo pessoal de uma expressão pessoal; e ainda que se tente, é impossível copiar esse caráter inteiramente individual que resta impregnado, queira-se ou não, nas linhas de um autor.

Se um povo não possuísse nenhum distintivo…

Se um povo não possuísse nenhum distintivo além da linguagem, esta já seria suficiente para dar-lhe uma literatura inteiramente original, ainda que se limitasse refazer o já feito em outros idiomas. Quer dizer: se a linguagem é autêntica, nunca se imita, porque nela sempre haverá algo de singular. Mas além disso: a maior literatura será aquela que englobar, no próprio idioma, a maior gama de modelos e temáticas, e portanto é mais que conveniente, mas necessário repensar na própria língua o que já foi pensado noutras, recriar o já criado dotando-o, pela linguagem, de cores autenticamente vernáculas: só assim se constrói uma tradição literária vigorosa e de valor universal.