As democracias modernas

As democracias modernas congregaram todos os meios mais ardilosos já fabricados pela mente humana e materializaram uma ode suprema e inédita à hipocrisia. Este sistema tão aclamado, cuja crítica é inadmissível e pode valer um lugar na cadeia, resume-se a uma tirania que somente se fortalece à medida que correm os anos. Uma tirania, portanto, um sistema legítimo, mas opressivo, injusto e cruel. O indivíduo, que dela absolutamente não participa, tem de engoli-la e financiá-la, ainda que diante de abusos e absurdos inaceitáveis, observando amordaçado e de mãos atadas a perpetuação de uma vontade manipulável e efetivamente manipulada por canalhas, uma vontade contrária aos seus interesses. Para tudo aquilo que um dia pareceu irrealizável ao mais deslavado dos tiranos, hoje, há meios seguros de execução, e assim parecem as almas, mais do que nunca, submetidas e incapazes de reagir.

Ter uma “causa” e querer impô-la

Há uma diferença notável entre ter uma “causa” e querer impô-la ao resto dos homens. É possível dizer, a princípio, ser tal diferença o caráter. Porém, também se pode dizer que, mais seja verdadeiro o sentimento inspirado pela “causa”, mais sejam seus “benefícios” claros na mente de quem a possui, mais será natural o impulso de querer que outros homens também a tenham, ou a “desfrutem”. Aqui, pois, chegamos à imposição. Não há como interpretá-la, independentemente de como se dê sua prática, ou de como esteja alicerçada, senão como uma violação primária, um ataque direto à liberdade do indivíduo. A imposição nunca será nobre e, após perpetrar-lhe a tirania, já não se poderá chamar homens livres aqueles que a sofreram.

Novamente Antero…

É impressionante como fui capaz de enxergar Antero através de seus versos. Leio-lhe uma biografia, e uma infinidade de fatos não descritos assomam-se a mim como óbvios — fatos que acabo confirmando na pena de outros biógrafos. Assim, compreendo-o inteira e perfeitamente, desde os tormentos íntimos à conduta; e se um Eça diz-lhe a convivência “fugidia”, embora “consoladora”, já sei os motivos, já deduzo o mistério que esconde essa postura aparentemente contraditória. Sei como Antero se sentia, e sei como lhe era pesado um fardo do qual não podia falar. É comovente vê-lo descrito por Eça, ver como impôs uma vitória esmagadora sobre seus conflitos interiores através de sua personalidade. E, finalmente…

Atropelar a preguiça

É simplesmente deliciosa a sensação que experimentamos quando, diante de uma tarefa complexa que necessita ser refeita em decorrência de um pequeno erro, tendo contra nós a mente, a qual aponta razões infinitas para livrar-se do novo esforço, atropelamos a preguiça, refazemos a tarefa e, finalmente, somos premiados com um resultado muito superior ao antecedente. É curioso notar o quanto é virtuosa e determinante a iniciativa nestes casos. O problema se coloca, tudo parece aconselhar-nos evitar o novo esforço; e, se o fazemos, segue-se um longo remorso proveniente da falha, proveniente de não termos feito melhor aquilo que o permitia. Em contrapartida, se tomamos a via oposta e o resultado nos premia, somos tomados por um misto de alívio e satisfação. Feliz aquele que jamais ceder à preguiça…