A obsessão moderna com a sexualidade
A obsessão moderna com a sexualidade, que a reputa questão de primeira categoria e não consegue, não suporta meia dúzia de palavras que não evidenciem seu caráter primordial no ser humano, só faz validar as velhas, desagradabilíssimas e antipopulares afirmações de numerosos pensadores ao longo dos séculos que notaram distanciar mais o homem superior do homem comum do que este de um cão. Escancara-se, para dizer como Pessoa, uma diferença de qualidade, uma repulsa inevitável, e ao primeiro parecerão sempre desprezíveis e degradantes as preocupações do segundo.
O poeta moderno, adepto das práticas…
O poeta moderno, adepto das práticas em voga de exterminar a pontuação dos versos, alterar grafias, ignorar maiúsculas, desenhar com letras, repetir palavras exaustivamente, etc., etc. tem de concentrar-se muito para não se passar por uma criança ou, em casos mais graves, por um retardado mental. Como pouquíssimas páginas bastam para enjoar de tais artifícios! Depois, ficamos a perguntar: e que mais? Frequentemente, temos de concluir que não passam eles de disfarces para uma incapacidade de se trabalhar palavras de maneira dinâmica e interessante, mostrando domínio e valendo-se criativamente dos recursos que oferecem o idioma. Acabamos por refletir naquilo que tanto repetem os latinistas, e parece mesmo a inteligência estar relacionada à habilidade na articulação da linguagem…
A evolução da poesia de Manuel Bandeira
A evolução da poesia de Manuel Bandeira descreve, muito mais do que uma rebeldia estética, uma busca por autenticidade, um despojamento progressivo de adornos a fim de centrar-se no fundamental. É uma poesia que mais buscou livrar-se de artificialidades que inventar outras novas; uma poesia íntima, pessoal e sincera, original antes pela expressão de uma individualidade que pela forma — a forma, esta que o próprio Bandeira expressamente taxou de secundária e que parece, a alguns, constituir-lhe a essência da criação poética. É por isso que não se imita Bandeira: para fazê-lo, seria preciso sê-lo; uma honra que felizmente não será concedida a ninguém.