Ao mesmo tempo que a prudência reclama atenção para o futuro, a paz recusa-se a comparecer ao cômodo mental em que esta esteja presente. O futuro, friamente analisado, é o fim e a possibilidade do fim. Em instância inferior, é a incerteza atual concretizando-se num pesadelo. Para que haja paz, é preciso não haver apreensão, e dificilmente se evita esta quando se vislumbra o amanhã. Em parte, é compreensível a tranquilidade do budista que nada tem e nada teme; mas, a menos que se efetive um rompimento total com os vínculos, algo quase fantasioso, não parece possível sê-lo e não ser, também, irresponsável.
O prenúncio da queda
Há um trecho interessantíssimo de My first wife, em que Wassermann descreve o estado psicológico que prenunciou a queda de seu protagonista: este, dado momento, passou a idealizar um ente real, isto é, passou a confundir uma pessoa viva com uma criação imaginária. É curioso que supõe Wassermann ser tal deslize fraqueza de escritores, habituados a fazer personagens de seres reais. Erra Wassermann, embora seja a suposição interessante. Porém não é tal arapuca destinada somente a escritores: quem caiu, pois, foi não o Alexander escritor, mas o Alexander homem. Há muitos e muitos exemplos semelhantes… A idealização feminina é um traço naturalíssimo do homem. Parece haver, se não uma necessidade, um curso psicológico natural quando este cria um laço e se deixa levar pelo sentimento. É como se a experiência tivesse de se estender no plano mental que, mais duradouro e presente, acaba sobrepondo-se a ela. Caímos todos nós, caro Wassermann, todos nós… embora nem todo abismo tenha a mesma profundidade.
My first wife, de Jakob Wassermann
É sempre um prazer entrar em contato com um espírito vivo como este Jakob Wassermann. Se procede a afirmação do historiador Peter de Mendelssohn que o romance traduzido como My first wife “is a work of exactest, most scrupulous autobiography”, “authentic to the last detail”, não podemos deixar de lê-lo com atenção especial. E não há, definitivamente, como travar gargalhadas em contato com as meticulosas descrições do estado de espírito do protagonista ao conhecer a mulher que lhe destruiria a vida. São descrições tão intensas que expressam, de uma só vez, sua turbulência psicológica, o desespero de sua situação e o remorso indescritível perante aquilo que está sendo narrado. É como se, a cada linha, ele se pusesse de cabelo em pé, absolutamente espantado daquilo que fez. Uma obra deste tipo não serve somente de desabafo ao autor: são linhas de um realismo tão forte que se convertem em experiências reais, também, para aquele que as lê.
El árbol de la ciencia, de Pío Baroja