É muito difícil julgar o artista inconsequente, que tem no agora sua única realidade e adota uma postura financeiramente irresponsável. Admita-se ou não, a prudência financeira é uma aposta. A frugalidade, a parcimônia, o construir lentamente um pequeno patrimônio é apostar que haverá futuro e que, nele, será possível dedicar-se inteiramente à arte, ainda que dela não se extraia um tostão. A verdade é que, em hipótese nenhuma, o artista pode permitir-se desperdiçar o agora, e deve trabalhar sempre as melhores ideias de que dispõe, ainda que por um tempo reduzido, muito longe do ideal; pois, assim como o futuro é uma possibilidade, há também a possibilidade de que jamais usufrua das tais condições “ideais”.
Parecem quase criminosas…
Um século depois, parecem quase criminosas as insistentes recomendações da senhora Maria Madalena ao seu filho irresponsável, pedindo-lhe que encontrasse um emprego e dedicasse o grosso de seus dias a trabalhar pelo próprio sustento. Aí está o prudentíssimo senso comum visualizado em perspectiva! E ficamos a imaginar que seria de Fernando Pessoa, cedesse à prudência materna e agisse como uma pessoa normal. É verdade, é verdade: Pessoa afundou-se em razão de uma burrice extraordinária; e tinha de pagá-lo. Mas como? Como forçar um homem desta estirpe a desperdiçar-se em banalidades? Um homem assim afirma-se, sempre, no momento em que contraria aquilo que lhe é conveniente, no momento em que se distancia terminantemente daquilo que lhe é esperado. É-lhe preferível viver como um caloteiro ou, antes, é-lhe preferível morrer a destruir-lhe o gênio pela conformação à normalidade.
É este o tipo de atitude!
Registrei, nestas Notas, o quão maravilhado fiquei ao percorrer o diário de três meses mantido por Pessoa aos vinte e quatro anos. Lembro-me de tê-lo comparado a mim mesmo nesta idade, e ter dito que sua rotina, a um animal de minha espécie, parecia literatura. Que dizer, agora, ao ler a mesma fase descrita por Richard Zenith? Fernando Pessoa, sem dúvida, era muito mais preocupado que eu com a posteridade. Queimar em meses uma herança que lhe poderia custear, segundo o biógrafo, uma vida modesta por muitos anos; imerso em dívidas, rejeitar frontalmente a ideia de ter um emprego “normal” e, em vez disso, escrever uma carta pedindo dinheiro a um filantropo multimilionário… É este o tipo de atitude que faz valer uma biografia! E pensar que nunca me deu na cabeça ideia semelhante! Em vez de enviar currículos, enviar cartas pedindo dinheiro! Não há discussão possível sobre quão mais divertida é uma biografia como essa: como compará-la a outra de alguém que opta por bater ponto de segunda a sexta, em evidente falta de criatividade? Para nem mencionar a herança, que incinerada estupidamente faz com que a biografia se nos torne muito mais interessante…
Não há modelos humanos mais desprezíveis…
Não há modelos humanos mais desprezíveis do que estes que, deparando-se com uma inferioridade real ou imaginária, fazem questão de humilhar. Faltam palavras… Tal manifestação de má índole não se dá senão em espíritos vis, merecedores do desprezo mais pleno em todas as esferas. A satisfação que colhem desta arrogância, que parece elevar-lhes o senso de importância, deveria, num mundo justo, ser sucedida de uma humilhação tão completa que proibisse, até o fim da vida, a mera ideia de que talvez pudessem ser em algo superiores a alguém.