Lemos um punhado de poemas coevos…

Lemos um punhado de poemas coevos e vamos percebendo: rompe-se com a pontuação, dispensa-se as maiúsculas, os versos são o mais das vezes curtos, e parece-lhes o efeito depender da estética e das palavras solitárias enquanto unidades de sentido. A verdade é que se tira efeitos interessantes de tais técnicas, já amplamente exploradas… Sugerem um como êxtase estas construções meio irracionais, meio exóticas e aparentemente desleixadas; mas parece a mais drástica mudança, no que tange à técnica, consistir em que os poemas tornaram-se peças visuais. Ainda que dependentes das palavras, têm eles a sonoridade como secundária, e são feitos para serem lidos, ou melhor, visualizados — jamais declamados. É certo: encontramos uma ou outra aliteração, um ou outro paralelismo; mas não quiseram ser tais poemas construções rítmicas. Há de se admitir: ainda que por vezes careçam de técnica, em muitos deles encontramos gênio — o que sem dúvida é superior…

Admira ver o autor que intercala sons e imagens

Embora não seja possível dizer que haja algo como o método de narrativa ideal, admira ver o autor que intercala sons e imagens, ações e pensamentos, como que estimulando todo o nosso aparato imaginativo. Tal balanço confere o mais das vezes uma dinâmica estimulante às linhas que lemos, e parece grande parte dos efeitos da obra derivarem destas variações que tornam as singularidades mais salientes. A uma cena estática, descritiva, segue-se uma ação repentina, que desemboca em reflexões e assim por diante; quer dizer: cada passagem acaba realçada em contraste com a anterior e com a seguinte; e, talvez, seja isso algo positivo para o conjunto.

Ainda que se viva ponderadamente…

Ainda que se viva ponderadamente, e que se tente planejar o ato a fim de que ele jamais saia irrefletido, e ainda que haja vistoso mérito em fazê-lo, há lances em que toda ponderação e todo planejamento são suplantados por um impulso que surge como necessidade. E notar que este prova-se frequentemente proveitoso! Por vezes, é justamente nele que se define toda uma trajetória, e dele deriva-lhe os melhores frutos. Parece a mente, nesta lógica que beira o irracional, sugerir que um longo e silencioso trabalho precedeu-lhe o estourar meticulosamente calculado. E então, é deixar que estoure…

Parece a economia um problema tão lógico…

Quando lemos alguns economistas, parece a economia um problema tão lógico e tão simples que realmente assusta a estupidez daqueles que a regem no mundo real. Hoje, há uma quantidade mais do que suficiente de exemplos históricos de medidas econômicas que se provaram frutíferas ou desastrosas, de forma que, na imensa maioria das vezes ou, melhor dizendo, no que tange às diretrizes macroeconômicas, não poderia haver dúvida sobre como deve agir aquele que tencione a prosperidade. Mas então parece o pragmatismo teórico absolutamente inaplicável à realidade, em que interesses os mais diversos, quais mesquinhos, quais ingênuos, perversos ou irresponsáveis são colocados em primeiro plano, em detrimento daquele objetivo, já enfraquecido e distante, que deveria nortear todas as medidas econômicas. A conclusão é só uma: o elemento humano inviabiliza qualquer equação.