A vida seria mais justa caso fosse possível planejá-la, ou melhor, caso soubéssemos antecipadamente sua extensão. Então que seria infinitamente mais simples balancear, com inteligência, a prudência e a ousadia, descolando de vez uma possível covardia da primeira e uma irresponsabilidade da segunda. É isso, de qualquer forma, um sonho infantil… e temos de viver no escuro, de forma que as próprias palavras prudência e ousadia muitas vezes esvaziam-se de sentido quando miradas em perspectiva: quer dizer, como taxar de prudente, por exemplo, aquele que poupa dinheiro na véspera da morte? Temos, repetindo, de viver no escuro, e isso significa que nosso desconhecimento pode simplesmente anular os efeitos de nossa razão.
Dedicar-se a sapatos
A vantagem do intelectual que, como Boehme, dedique-se a sapatos durante o dia é escrever aquilo que quiser, quando quiser e como quiser, lendo também aquilo que quiser por quanto tempo quiser, e publicando aquilo que escreveu somente se quiser. Em suma: a liberdade. Não é preciso envolver-se em polêmicas, agradar ou submeter-se a editores e outros escritores, nem lidar com leitores-clientes, nem nada. Há sapatos que servirão sempre como alforria intelectual. Nada há que pague essa autossuficiência e essa despreocupação. Liberdade, enfim, é sempre dignidade.
A aflição do intelectual
A aflição do intelectual é ver-se impotente perante o curso natural do pensamento de sua época. Ainda que decida fazer algo, será inútil e frustrante. As qualidades que precisa para impor-se e influenciar são frequentemente opostas àquelas que cultivou para tornar-se. Mas não deve lamentar, porque enfim não interessa o “pensamento de sua época”, senão como matéria-prima para suas reflexões. Os modismos caem como surgem, levando consigo seus ideólogos e entusiastas. Não se deve e nem se pode esperar nada senão de uns indivíduos isolados que fazem com que a vida intelectual seja gratificante.
É sempre belo dedicar-se a causas perdidas
É sempre belo dedicar-se a causas perdidas, mas é pouco inteligente permitir-se fritar os nervos por elas. Dedicar-se e nada esperar em troca; dedicar-se a despeito do fracasso inevitável: isso basta. E no mais, deixar que as coisas corram como devem correr, não se preocupando senão como se preocupa com o dia nascer chuvoso ou ensolarado. Fazer o digno e reconfortar-se na consciência; e o resto, que seja como tiver de ser…