É sempre um prazer refletir sobre estes momentos em que a expectativa choca-se em alta velocidade contra um muro de concreto, destruindo-se completamente. São poucos os lances tão propícios a uma reflexão justa, a um exame sensato da realidade como nestes em que o presente é a desilusão e o futuro desalentador. Talvez por isso o pessimismo seja, em filosofia, a postura mais consistente: pois quando se embasa em experiências tão fortes e tão patentes, mostra-se quase irrefutável. Momentos assim têm o poder de impor, de uma só vez, a humildade e o silêncio.
Finalmente…
É uma verdadeira alegria constatar que, após quase um ano de trabalho duro e repetidos lamentos, finalmente posso aqui registrar que terminei um novo voluminho de poemas. Em poesia, é inegável existir esse prêmio. Agrada o saber-se autor de versos acabados, sensação que, com a prosa, é assaz diferente… Agrada, sobretudo, porque a poesia surpreende, em razão da própria técnica poética, e surpreende mesmo que o leitor seja o autor dos versos que lê. Esse efeito surpresa, quando escancarado pela nova leitura, traz uma satisfação sincera ao evocar em mente o momento de brilho de sua criação. Assim é a poesia: muito trabalho duro, e uns poucos lampejos que parecem justificar tal trabalho; lampejos que, fulgindo em meio a um todo coeso, conferem imenso valor a uma criação enganosamente estéril.
A ostensiva guerra cultural vigente…
A ostensiva guerra cultural vigente, que há décadas tratou de contaminar praticamente todas as áreas do conhecimento num trabalho gradativo, já parece indicar que no futuro uma serenidade em se analisando a história será como que um milagre, senão um contrassenso. Tal fenômeno já não pode ser ignorado, e de forma alguma constitui ato isolado perante o panorama cultural hodierno; e mesmo que haja uma tentativa de se lhe desviar, vai ele inconveniente batendo em todas as portas, invadindo as residências e se impondo perante o indivíduo. Que fazer? Da mesma forma que é conveniente imunizar-se ante tais agitações, há casos em que o fazê-lo parece um flerte com a desonra. Abster-se do verbo, na situação atual, é permitir que a mentira seja ao futuro transmitida como história. Lamentável…
A inveja é invencível
A inveja é invencível. Talvez, entre todos os sentimentos humanos, somente ela possua esse caráter absolutamente inflexível. Poder-se-ia observá-la sob duas óticas: a de quem a exercita, e a de quem a sofre. O invejoso é um escravo deste sentimento que, se não estimulado, surge e robustece espontaneamente. Ainda que queira vencê-lo, não pode sem uma desfiguração de si mesmo; portanto, o mais que pode fazer é empreender um combate contínuo, e nele prosseguir a despeito das derrotas. Já o invejado, isto é, o paciente da inveja, que lhe resta fazer? Este, sem dúvida, encontra-se ainda mais impotente diante do problema, e parece nenhuma ação que porventura empreenda capaz de anulá-lo. Valha-se do desprezo, uma solução talvez razoável, e não fará senão desviar-se do natural incômodo que experimenta; não vencendo jamais o agente. Em resumo: a diferença, em ambas as perspectivas, parece simplesmente se reduzir a duas posturas: a daqueles que incitam, e a daqueles que evitam a inveja; ficando evidente, em ambos os casos, uma diferença tão somente de caráter, não de resultados.