A vida só parece monótona a quem não lhe presta a devida atenção. Basta registrá-la para percebê-lo, caso os olhos abertos não sejam suficientes ou a memória falha. Esta é uma verdade que impressiona quando constatada: subitamente, parecem fazer sentido muitas singularidades aparentemente banais do passado, que passaram como despercebidas. Então, fica muito difícil não tender a uma interpretação quase mística da realidade, posto que imenso esforço se faz necessário para negar conotações ocultas que revelam-se realidades infinitamente mais plausíveis ao raciocínio. Em suma: a monotonia, o mais das vezes, é mera desatenção.
A arte, em sua manifestação mais autêntica, é a expressão…
O artista que ambiciona o sucesso enquanto vivo merece-o, e merece-o por ser a arte escolha dificílima. Contudo, tal artista nunca, jamais poderá almejar um posto entre os maiores, posto que a arte suprema nada espera e nada tem de esperar. A arte, em sua manifestação mais autêntica, é a expressão que brota de uma necessidade e tem como finalidade a própria expressão. Pouco importam os meios pelos quais se expresse, as técnicas de que porventura se valha: são estes meros detalhes que, realçados em excesso, obscurecem esta verdade autoevidente: não se faz grande arte por capricho.
“Um regime ainda mais elitista”
Diz-nos Gilberto Freyre, em Ordem e Progresso:
Tal foi o caso dos republicanos. Vociferando desde 1870, com a fundação de seu partido, pela abolição da escravidão, a incorporação dos excluídos à cidadania e a construção de uma sociedade democrática e participativa, assim que chegaram ao poder esses líderes criaram um regime ainda mais elitista, concentracionário e excludente do que aquele da monarquia que haviam destituído.
E, mais adiante:
Raros parecem ter compreendido o que havia de substantivamente autoritário nas ideias dos principais fundadores da República em contraste com o que se tornara essencialmente antimonárquico no parlamentarismo e no extremo liberalismo de muitos dos estadistas do Império, tantos deles apenas adjetivamente monárquicos nas suas ideias e nos seus processos.
Talvez não haja, em toda a história brasileira, uma tragédia melhor desenhada do que essa transição, não de regime político, mas de valores que culminou talvez na ditadura de Floriano Peixoto, depois da qual o Brasil jamais foi o mesmo. Foi todo um assassinato progressivo de cada uma das qualidades morais que caracterizavam a índole da sociedade brasileira, operado especialmente por um sistema que passou a premiar o opróbrio, a vilania e a malandragem, em contraposição direta com o que ocorria no Brasil imperial. É preciso ser completamente cego para não enxergar o desastre, a derrocada que assolou um futuro que então aparentava auspicioso a médio prazo e que talvez não esteja melhor retratado na literatura brasileira que pelo dramático Pneumotórax, de Manuel Bandeira: podia ter sido, e não foi.
No limiar entre covardia e coragem
É preciso ter uma frieza ofídica e valores muito sólidos para, numa situação extrema de risco iminente, refletir num átimo e tomar a decisão correta. Situações assim, em que o homem se encontra no limiar entre covardia e coragem, são frequentemente chaves de uma biografia e seus efeitos perduram por quanto tempo uma vida se estender. É como o caçador que, com o rifle descarregado, é surpreendido por um tigre faminto: o lance se impõe e não há evitá-lo; o olhar fixo na fera evidencia um movimento em falso ser a morte; e, com o coração disparado, tem de o homem decidir.