O cinema, a música e o teatro, em comparação com as artes plásticas e a literatura, possuem a desvantagem de se verem contaminados de operários que se julgam, mas não são artistas. E daí nasce uma série de consequências que só podem frustrar aquele que pariu a criação. Deve ser angustiante para um compositor perceber possível fazer carreira de virtuose executando obras dos outros, e confrontá-lo com o cenário despojado das facilidades que a primeira opção oferece, caso opte por se concentrar em suas próprias composições. Mais angustiante deve ser acompanhar o reconhecimento de operários da música como artistas. Ao menos, da angústia nascerá a certeza de que sua arte só se faz solitariamente, e de graça. Daqui em diante, jamais confundirá a verdadeira com a falsa motivação.
Na personalidade de um escritor…
Não há como negar: na personalidade de um escritor, o excêntrico é o mais cativante. Fernando Pessoa é-nos muito mais simpático graças à estúpida empreitada editorial que lhe queimou a herança; Dostoiévski, idem, por ter acreditado no potencial de sua mirabolante estratégia diante da roleta; Cioran, o filósofo, jamais seria o mesmo se não sofresse ataques de nervos comprando ovos. E por aí vai… Mas é muito raro ver nos escritores a consciência de que serão personagens da própria biografia, e que portanto é no excêntrico que se deveriam concentrar. Em benefício da biografia, deveriam seguir o conselho dado por Cioran nestas linhas maravilhosas:
22 juin
Suis allé au marché. Pour quatre œufs, j’ai attendu une demi-heure. Crise de nerfs, fureur, ces femmes bavardes me mettent hors de moi. J’ai attendu uniquement pour me démontrer à moi-même que j’étais maître de mes nerfs, que je pouvais me contenir, et j’ai supporté effectivement toutes ces bonnes femmes sans hurler. Mais après, j’ai failli hurler.C’est toujours la même histoire: tout effort que nous faisons sur nous-même se retourne contre nous ou nous nous retournons contre lui. La santé, c’est donner libre cours à ses humeurs, c’est être ce qu’on est.
Se não a saúde, ao menos a complacência com os leitores futuros.
Espanta haver críticos literários profissionais…
Espanta haver críticos literários profissionais, e dos bons, que tenham escrito linhas e linhas sobre Augusto dos Anjos sem jamais suspeitar que o “poeta da melancolia”, ao encaixar no verso vocábulos como “helminto”, “ancilóstomo” ou “cólpode”, poderia fazê-lo aos risos. Mas não… há críticos que, a bem da verdade, não fizeram senão interpretar o poeta — um poeta! — em sentido literal. E, em sentido literal, a melancolia e o desespero vão bem longe do humor, não é mesmo? Que coisa! Dizem tolices monumentais e engraçadíssimas aqueles que não captam o quão divertido devia ser para Augusto dos Anjos, após a criação genial de sua personalidade poética, forçar os versos a atingir o cume da excentricidade. Talvez jamais artista algum tenha-se divertido tanto ao dar vazão a um conteúdo psicológico tão verdadeiramente angustiante. Porque, em seus versos, são verdadeiros o desespero, a melancolia, a angústia e, também, o humor. Não percebê-lo é não perceber nada.
A técnica do romance moderno…
A técnica do romance moderno, que expande as cenas, apresentando-as com maior riqueza de detalhes e explorando as minúcias interiores e exteriores dos acontecimentos, tem lá suas vantagens. Mas, às vezes, tem-se a impressão de que tal detalhamento enfraquece o enredo. Se tomamos como exemplo os contos populares antiquíssimos de algumas civilizações, vemos que, muitas vezes, a narrativa varia, os detalhes variam, podendo até haver mais ou menos cenas a depender da fonte; não varia, contudo, a sequência lógica da história, e nesta reside a sua força. O curioso é o seguinte: estes contos antigos, mesmo se narrados esquematicamente, desprovidos de artifícios literários, produzem praticamente o mesmo efeito; já um romance moderno, se desprovido das particularidades do estilo do autor, transforma-se noutra coisa bem diferente. As narrativas antigas facilmente podem, como foram e são, ser contadas oralmente sem que muito se perca, algo impossível de se fazer com um romance moderno. Este, só pode contá-lo o autor, e pelas linhas que já escreveu. Talvez, isso signifique que a história nunca ganhe verdadeira autonomia, o que pode ser favorável ou não.