Há na mente uma antena cujo funcionamento…

Há na mente uma antena cujo funcionamento há de ser estudado, e da qual frequentemente derivam as melhores deliberações. É difícil compreendê-la porque, às vezes, as circunstâncias não bastam para lhe justificar a atuação. O caso corriqueiro é aquele em que estas permanecem as mesmas por um tempo prolongado, não raro por anos, e a antena permanece silente, sem captar ou emitir qualquer sinal. Então, subitamente, ela desperta, captando de uma só vez conexões infinitas, recomendando a ação imediata, urgente, antes mesmo que se defina aquilo que se há de fazer. Dá-se em seguida o fervedouro de ideias, e sobrepõe-se à tentativa de organizá-las a sensação de que muito tempo se perdeu. A agitação chega a doer; se é noite, não se pode dormir. Enfim, após algum punhado de horas eletrizantes, o pensamento se ordena e permite a deliberação. Que satisfação vem depois!

Traduzi, ao inglês, dezenas de contos…

Traduzi, ao inglês, dezenas de contos neste último ano. E, ao contrário do que imaginava, diverti-me no demorado trabalho, ainda que me deparando o tempo inteiro com a insuficiência da tradução. Curioso foi rir-me durante o processo, algo que contrasta fortemente com meu estado de humor ao parir aqueles textos. Lembro-me bem… Após imergir-me na criação, o sentimento que predominava era outro. Há algo indescritível que se experimenta ao parir uma obra, enquanto se enfrenta as dificuldades do trabalho. Agora, tudo aquilo passou. Posso recordá-lo e revivê-lo com um distanciamento sereno, e rir-me do resultado de tão intensa aflição.

Talvez a principal razão do ateísmo moderno…

Talvez a principal razão do ateísmo moderno seja o homem, hoje, passar a vida num ambiente controlado, alimentando uma falsa sensação de segurança, que se coloca justamente no lugar daquilo que mais lhe faz falta: a experiência do desamparo extremo, da total dependência de sua condição. Não seria difícil curá-lo da descrença: bastaria colocá-lo num barco pequeno, em mar aberto, no meio de uma tempestade, ou sozinho, à noite, em mata fechada, que ele certamente faria as pazes com a religião e retornaria da experiência transformado, recitando de cabeça um punhado de orações.

Algo que salta aos olhos nos grandes feitos…

Algo que salta aos olhos nos grandes feitos mais recentes da humanidade, boa parte relacionada à tecnologia, é que nenhum deles possui grandiosidade comparável aos grandes feitos do passado. Tal se nota por serem os primeiros predominantemente feitos isolados da inteligência, para os quais não se exigiu maiores virtudes. Em contrapartida, temos os loucos dos séculos precedentes, cujas façanhas sempre começam por um inalienável risco pessoal. É verdade que, valendo-se de parâmetros distintos, é possível optar por aqueles, em razão de acarretarem transformações mais acentuadas. Mas não há talvez nenhum destes novos consagrados cuja mera ideia de embarcar num veleiro e meter-se com instrumental precário num mar tempestuoso, ou desbravar a pé um território desconhecido, não provoque o máximo terror.