O que há de mais comum é julgar erroneamente uma personalidade por simplesmente encontrá-la deslocada. É difícil, porém, percebê-lo, porque não se pode conhecer de imediato a essência de ninguém. Esta só se revela quando em condições propícias, as quais muitas vezes não consegue produzir. Daí se torna possível o contraste: o mesmo homem, num ambiente, pode exibir qualidades impressionantes, enquanto noutro pode provar-se abaixo do medíocre e passar uma lastimável impressão. Não importa o quão difícil seja, mas é preciso esforçar-se por não ser este homem, reconhecendo que aquilo que se mostra é exatamente aquilo que, naquele momento, se está a cultivar.
Os benefícios que a solidão proporciona ao intelectual…
Os benefícios que a solidão proporciona ao intelectual são conhecidos. Pode-se dizer, mesmo, que uma dose incomum de solidão é-lhe indispensável. Ocorre, porém, que às vezes não se dá importância devida à verdadeira bênção que são as boas companhias. Há quem nunca pôde desfrutá-las e, em resposta ao impedimento, teve de se decompor. Porque algo está evidente: a personalidade reforça-se quando usufrui da presença regular de seus pares; e tende a se enfraquecer se apenas consegue afirmar-se na solidão. A diferença é haver ou não um ambiente apto a acolhê-la, e tal ambiente só com muita sorte se consegue criar. Está, pois, em tremenda desvantagem aquele que se permite uma vida dupla para não abandonar de todo o convívio social: a sua face inferior, por quanto tempo viva, forceja por destruir o último resquício daquela parte nobre cuja maior glória possível numa existência consiste em conseguir que se faça manifestar.
A insatisfação com o tempo é compreensível…
A insatisfação com o tempo é compreensível porque ele parece sempre contrariar as expectativas. Quando se quer que ele passe logo, ele se mostra moroso; quando se quer o contrário, ele se mostra veloz. Assim que a espera é sempre demasiado longa, e os bons momentos fugazes. Oscila-se entre anseios que não se realizam e oportunidades que escorrem pelas mãos. A conclusão é que nada se pode aproveitar. No entanto, percebe-se com os anos que, embora não se consiga atrasar ou acelerar a passagem do tempo, sempre se consegue transformar em realidade a insatisfação. Não há outra lição a se aprender: tudo se encerra neste mínimo manejável, para o qual o esforço consciente deve convergir.
O mais evidente embaraço do investimento…
O mais evidente embaraço do investimento que se faz na vida é o receio de arriscá-lo, frequentemente paralisador. Perde-se aquela disposição para o incerto, sem a qual não se pode evoluir. Para não mencionar o verdadeiro prazer do desafio, tornado impossível quando a mente se vê dominada pelo medo de perder. Não há dúvida de que há diversão na imprudência, no agir que não se anula medindo consequências; mas para divertir-se com sabedoria, é necessário alcançar um patamar de consciência superior.