Há algo de verdadeiramente genial na maneira como Gilberto Freyre constrói suas obras. A princípio, impressiona o caráter inclassificável de todas elas, isto é, o caráter de mistura, de obras devotadas a muitas, e não somente a uma ciência. Pelos prefácios, já se nota um amontoado impressionante de referências contrastantes, que instiga a curiosidade de como elas se irão harmonizar nas páginas seguintes. Então começa Gilberto Freyre sua prosa, intercalando antropologia e sociologia, sínteses e relatos, passando de um inventário de costumes a eventos históricos, penetrando no recanto mais íntimo de suas personagens, e todo esse amontoado vai lentamente formando um panorama complexo e vividamente colorido, que dificilmente uma obra puramente sociológica, antropológica ou historiográfica seria capaz de igualar. É como se ele, metódico, trocasse a tonalidade da tinta após pintar vários parágrafos com uma só cor. Depois de muitas páginas, quando já é possível observar o conjunto, sentimo-nos diante de uma obra com precisão historiográfica, mas pintada com sutileza literária na construção das personagens, na minuciosidade de detalhes, na representação dos ambientes socioculturais que serviram de pano de fundo para o período histórico abordado. É claro que suas obras, construídas dessa maneira, não podem agradar os tarados pela objetividade dos fatos — mas estes, porém, conhecendo-os, por isso mesmo não serão jamais capazes de os interpretar.
Ocorreu no Brasil uma drástica mudança…
Nos últimos anos, ocorreu no Brasil uma drástica mudança psicossocial que há de ter efeitos duradouros e que, por ora, são de extensão imponderável. Impulsionado especialmente pela política, e na contramão do que ocorre no restante da América do Sul, o fenômeno encantaria tanto um Gilberto Freyre quanto um José Maria Bello. Apenas um cego o não notaria ao analisá-lo sociologicamente perante as últimas décadas. Está em curso uma guerra sobretudo de valores, iniciada por uma centelha que aparentava insignificante mas que gerou um efeito em cadeia e cuja vitória, agora, parece mera questão de tempo. A intelectualidade dominante, que estabeleceu-se num trabalho de décadas, exatamente no momento em que parecia soberana e invencível, viu surgir, de onde jamais esperaria, um movimento reativo que a fustigou com violência inopinada. Hoje, vemo-la em desespero, valendo-se de todos os poderosos meios de que dispõe para evitar a derrota; mas ainda assim parecem estes ineficazes, somente a postergar um fim que já se afigura inevitável. Será uma lástima se o futuro não puder apreciar este momento através de linhas isentas.
Há algo brilhante e curiosíssimo no Simbolismo
Por muito que se diga contra a obscuridade do Simbolismo ou, mais especificamente, dos poetas simbolistas, a verdade é que há algo brilhante e curiosíssimo nesta técnica expressiva que parece ocultar-se quando, em verdade, abre-se a possibilidades insondáveis. Em poesia, as palavras adquirem um peso incomum quando evocadas. Um verso desprovido de nexo sintático mas abundante em vocábulos sugestivos terá, sim, um forte efeito na cabeça de quem os lê. Se constrói-se “Dia chuvoso; dor; fadiga e desalento”, embora não conectadas logicamente por um argumento, a mente, ao ler tais palavras, de pronto as relaciona e forma uma imagem possuidora do elo lógico que lhes parece faltar. Assim, o poeta consegue fazer com que elas se manifestem em nuances individualizadas para cada leitor. Se, por vezes, a obscuridade pode ser enfadonha, por outras pode gerar efeitos interessantíssimos e quase ilimitados.
Os escravos do passado
Se causa estranhamento, e um estranhamento legítimo, uma inteligência como Schopenhauer apegar-se a uma filosofia concebida aos trinta e passar o resto a vida a sustentá-la, que dizer de Freud, velho e de cabeça branca, a continuar limitando a psicologia humana à “sexualidade reprimida” e a traumas infantis? É o fim! Parece uma vida inteira desperdiçada, uma vida inteira em que o espírito não foi capaz de contemplar possibilidades superiores. Ou então evidência de um orgulho invencível, que tratou de sabotar-se estrangulando todo e qualquer lampejo que pusesse em risco as conclusões de anos precedentes. Como é possível, ou melhor, como não rir ao imaginar Freud, já no fim da vida, a despejar a mesma ladainha sobre um paciente igualmente velho? Dois homens, já com um caixão aberto a esperá-los, a vasculhar episódios da infância para reputá-los agentes de ações atuais. É verdadeiramente uma lástima que Voltaire tenha vivido antes de Freud.