Talvez nada seria tão benéfico à filosofia moderna…

Talvez nada seria tão benéfico à filosofia moderna quanto inserir exercícios literários na grade curricular das universidades; quer dizer, estimular os candidatos a filósofos a escrever pequenos contos, pequenos poemas talvez, forçando-os a transformar filosofia em literatura. Obviamente, tal exercício seria uma confrontação direta com aquilo que se tem hoje como a única maneira aceitável de se fazer filosofia. E por isso mesmo seria ele tão benéfico. Não se trata de vender ideias pela arte, algo abominável, mas de clarificar o papel concreto da filosofia, isto é, inseri-la em questões concretas, mostrar que há entre ela e a vida uma ligação fundamental, não se resumindo a primeira a um jogo de construções abstratas, um jogo inútil para aquele que busca respostas para questões reais. Sem dúvida, seria um exercício de grande utilidade para os estudantes.

A trajetória intelectual de Hermann Hesse

A trajetória intelectual de Hermann Hesse é admirável. Os “escritos póstumos de Joseph Knecht”, mormente “As três vidas”, são como uma síntese de uma vida inteira dedicada ao estudo, de uma longa imersão nas mais altas filosofias do oriente e do ocidente; uma síntese das grandes religiões e das grandes compreensões da realidade, partindo dos elementos mais simples aos mais complexos, da moral prática às abstrações do pensamento. E ver tais linhas provenientes do autor de Demian… Não foram poucos os que tentaram harmonizar o oriente e o ocidente no último século; mas pouquíssimos o fizeram com a beleza alcançada por Hesse.

O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse

Este belíssimo romance é uma admirável tentativa de sintetizar quanto há de mais alto e mais nobre na existência humana. Se analisamo-lo com cautela, vemos que a virtuosidade, em suas múltiplas faces, foi cuidadosamente distribuída pelas personagens e pelo enredo do romance. Dificílima tarefa! e por isso digna do maior apreço. Estruturalmente, a obra é interessante por fornecer-nos lances assaz previsíveis e deixar algumas lacunas na história. Tal nos faz refletir sobre a necessidade da surpresa quando há um todo harmonioso a expressar uma mensagem profunda e potente. Numa narrativa inteiramente impregnada desta harmonia, quanto se ganha surpreendendo? Notamos, na obra, o honroso esforço por dar voz ao inefável, por expressar-se pela singeleza e complexidade do silêncio, da música, do céu estrelado, como se tais elementos não carecessem além da própria presença para dizer-nos o que têm a dizer. A vida de Joseph Knecht encerra-se numa cena de simbolismo inesquecível: cada detalhe contribui para a mensagem central da obra. A beleza radiante da paisagem, os contrastes entre juventude e velhice, instinto e racionalidade, saúde e doença, o ato simultaneamente humilde e corajoso do erudito que desafia e permite-se engolido pela natureza, tudo isso, tomado em conjunto, parece tangenciar a complexidade da vida. Por algum motivo, brota-nos a imagem de Hermann Hesse voando alto, muito alto, nos mesmos anos em que um exército de autores atiravam a literatura na depravação…

É realmente espantoso a que ponto chegou…

É realmente espantoso a que ponto chegou a psiquiatria moderna! É quase como se fosse necessário um recomeço do zero, uma queima conjunta de todos os livros e o abandono completo de todas as classificações. Um homem que apresente qualquer mínimo conflito interior já está infalivelmente doente; quanto a isso não há discussão. E aí ficamos a pensar no estado vexatório em que a ciência se colocou. Não se pode concluir outra coisa senão que o homem está tanto mais saudável quanto menos pense, ou quanto menos o pensamento lhe influencie a vida; em outras palavras: a ciência da mente estipulou como modelo de higidez mental o homem cuja mente não atua. Há nisto algo de maravilhoso e inacreditável; é sem dúvida uma proeza das maiores e não cansa de surpreender. Alta para o bobo alegre e terapia para os antissociais, para os melancólicos, para os misantropos, para os sorumbáticos, para os solitários e para os silenciosos! Terapia para aquele que não consegue chegar em casa do trabalho e sorrir coçando a barriga diante de uma televisão! Terapia, e que troquem para sempre os doentes as obras filosóficas por livros de colorir!