A rima é indispensável?

Embora eu, particularmente, muito aprecie o verso rimado, jamais endossaria Bilac e Guimarães Passos, que sustentaram “que em composição alguma de versos se deve prescindir da rima. Ela é indispensável”. Isso por vários motivos. Mas um deles merece menção especial. Não sei como compunham os poetas supracitados, porém parece-me necessário, saltando todo o processo de ideação do poema, que dele seja feito um rascunho. Se quero fazer rimas, pois, esboço primeiro o poema em versos brancos, para em seguida concentrar-me no ritmo, nas rimas e na seleção minuciosa das palavras. Percebo claramente que, preocupasse-me com rimas neste momento do esboço, não faria senão me estorvar o impulso criativo, interrompendo-me o fluxo das ideias para abrir um dicionário, algo absolutamente contraprodutivo. Portanto, tenho de concluir que este impulso criativo, em sua forma espontânea, pede a manifestação em verso branco — para não dizer verso livre. Pois bem: sei que nem todo grande efeito artístico é espontâneo, muito pelo contrário, como quase todo brilho de uma obra é proveniente de detalhes cuidadosamente pensados. A rima, pois, embora seja uma artificialidade, fica justificada. Mas a prática mostra, repetidas vezes, que rimar os versos é adulterá-los, e ainda que se possa ganhar em beleza com fazê-lo, vai-se aquela naturalidade inicial. Finalmente, chego onde quero. Haverá versos em que o poeta se porá num nível de estímulo tão forte que se sentirá a derramar emocionadamente a alma sobre o papel; versos que sairão como uma avalanche, que lhe expressarão o mais íntimo e brotarão com ímpeto e nitidez diferente daquilo que cria de ordinário. Não estou certo sobre o quanto se ganha rimando tais versos, quer dizer, parece-me que o poeta que os deforme para enquadrá-los em formalidades talvez cometa um crime contra si mesmo e insulte o singularíssimo momento em que os concebeu.

A diferença entre as obras de Jung e Frankl

A diferença entre as obras de Jung e Frankl e quase a totalidade do que se escreveu em psicologia é que ambos arquitetaram uma psicologia para mentes saudáveis, enquanto o grosso do restante não se aplica senão a estados mentais doentios, ressaltando, sempre e somente, a morbidez de que o homem pode padecer. Um indivíduo minimamente vivido e são que escolha uma obra de Freud ou Adler para adentrar na ciência da mente sairá espantado e desgostoso, tomado de um misto de estranhamento e repulsa porque, obviamente, o homem pintado em tais obras pouco ou nada tem de comum consigo mesmo. E então verá, em cada página, intermináveis classificações de transtornos, complexos e similares, muitas vezes associados a comportamentos naturais, porém justificados através de motivos que parecem insultos diretos àquele que lê. Em Jung, em Frankl, como é tudo diferente! Nestes grandes psiquiatras, que foram também grandes homens, embora se encontre o Freud e o Adler, o alto espírito pode, enfim, se reconhecer.

A ótica taoista

Há uma notável beleza quando se medita sobre a realidade sob a ótica da filosofia chinesa ou, mais precisamente, sob a ótica taoista. O princípio de dualidade justifica-se porque, em última instância, é necessário um equilíbrio, uma harmonia para que o mundo continue existindo. O taoismo é uma doutrina que nos força a vencer, no micro e no macro, o caos aparente, fornecendo-nos tão somente a meditação prolongada como meio de superação. Esta, inevitavelmente, nos conduzirá à conclusão redentora, cujo efeito é a paz. Impressiona notar a aplicabilidade desta que parece uma filosofia demasiado simples, posto seja possível verificar atuantes os princípios que a sustentam onde quer que as lentes sejam direcionadas. É, sem dúvida, uma doutrina digna de admiração.

Tudo indica que completarei um ano inteiro…

Tudo indica que completarei um ano inteiro de dedicação exclusiva a quinze míseros poemas ou, mais precisamente, a uns mil e setecentos versos. Ria, Hugo, ria! E, no fim do processo, não haverá publicação, pois é preciso que os versos descansem — ainda que pareça ser isso o que têm eles feito nos últimos meses. Não fossem estas notas um eficacíssimo meio de dar vazão a ideias que surgem e se vão amontoando, já me veria diante de uma montanha inexpugnável de anotações. Tenho, por baixo, uns quarenta contos perfeitamente idealizados que não me exigem mais que um dia de trabalho para realizarem-se no papel. Além disso, já não sei quantos enredos para romances, peças ou o que for. Até para poemas, há excessos que não puderam ser aproveitados neste volume. E fico aqui a imaginar como, no passado, artistas que não dispunham de secretários organizavam-se após dez, vinte anos de trabalho criativo. Sem um computador, parece-me que eu seria forçado a desistir…