O meu melhor humor…

O meu melhor humor — posso chamá-lo talvez minha veia sarcástica — prova-se a mim o melhor justamente por se manifestar de praxe com intensidade máxima em momentos sérios. Sei bem o que sentia Cioran: é um impulso irresistível! É por isso que, relaxado, talvez não me sinta instigado a gracejar. Para fazer boas piadas, tenho de estar em atmosfera solene; então saem elas como por automatismo, senão necessidade. E assim percebo que, nestas Notas, que se fazem leves, tranquilas, quase sem esforço, é raríssimo encontrar mostras de minha fatal inclinação para a palhaçada. Já em minhas linhas “sérias”, onde me ponho num estado de concentração plena, onde arranco-me do íntimo o que me parece a verdade mais pura, onde — não há negar… — meto-me amiúde, exatamente como Cioran, a despejar pessimismo, desespero e desencanto no papel, então, precisamente nestes momentos, também como Cioran, tenho a sensação de ser quase um pecado o desperdiçá-los como pano de fundo para uma piada grosseira. Infelizmente, não posso mudar-me a natureza…

O injustiçado que se cala

É realmente bela a postura do injustiçado que se cala. Diante da injustiça patente, com todas as razões para rebelar-se e contra-atacar, responde ele com o silêncio. Parece a nós, que o observamos, tal atitude uma lição de moral. Esse estoicismo altivo, esse desprendimento do orgulho e essa indiferença para com o resultado tem um quê de grandiosidade tácita, cuja exploração ou não é frequentemente o brilho ou defeito de muitas tragédias. Em vida, tal espírito não merece de nós senão respeito.

Há um curioso vácuo…

Há um curioso vácuo que se segue a atos cruentos, apaixonados, irrefletidos, em que o homem extrapola os limites da ética. Parece a consciência emergir questionando razões, quando já não é possível desfazer o que se fez. O vácuo se impõe, geralmente resultando em arrependimento dos desnecessários excessos. É cabido o cotejo com o déspota que, num rasgo de cólera, comete uma injustiça tão indevida quanto escusada. Então se nota que, nuns, é tal vácuo instrutivo; enquanto, noutros, parece legitimar a imoralidade e prenunciar excessos ainda piores.

O muro de concreto

É sempre um prazer refletir sobre estes momentos em que a expectativa choca-se em alta velocidade contra um muro de concreto, destruindo-se completamente. São poucos os lances tão propícios a uma reflexão justa, a um exame sensato da realidade como nestes em que o presente é a desilusão e o futuro desalentador. Talvez por isso o pessimismo seja, em filosofia, a postura mais consistente: pois quando se embasa em experiências tão fortes e tão patentes, mostra-se quase irrefutável. Momentos assim têm o poder de impor, de uma só vez, a humildade e o silêncio.