Embora em muito pareçam razoáveis as explicações orientais para as discrepâncias extremas de condições em que nascem os seres nesta terra, não parece fazer sentido o psicopata assassino renascer santo, ou o inverso. Quer dizer: onde está, pois, o elo que une naturezas tão diferentes? É muito difícil aceitar a doutrina do carma quando notamos indivíduos pagando por atos que não seriam capazes de cometer. Se uma mesma essência há de se manifestar em variadas circunstâncias, algo de si tem de subsistir para que seja identificável, ou seja, para que seja ela mesma numa circunstância diferente. Não parece plausível que, a cada vida, em se tratando de um mesmo ser, este desenvolva um temperamento que não guarda semelhança alguma com aquilo que foi. Se é assim, o que, então, o define? E como admitir a suposta “evolução espiritual” pela qual deve passar, se a cada vida, irreconhecivelmente, retorna à estaca zero? Para estas perguntas, o que há de respostas não parece satisfatório…
O poeta converte-se com facilidade em bom prosador
Já notaram que o poeta converte-se com facilidade em bom prosador, enquanto o contrário dificilmente acontece. Comparada à prosa, a poesia apresenta um nível de dificuldade tão superior que ao poeta aquela parece-lhe quase brincadeira. Para compor versos é preciso, em primeiro lugar, estar num estado de espírito propício, isto é, num estado de espírito que permita concentrar-se inteiramente na composição. Dispersa, a mente não faz poesia. Em seguida, a lentidão no compor, as dificuldades técnicas, o grande número de elementos que se devem harmonizar na criação, tudo isso, com o tempo, acostuma o espírito a uma paciência e uma disciplina que, para fazer linhas em prosa, está muitíssimo além do necessário. Faz-se prosa à força; prosa fluida e natural. O simples movimentar dos dedos é suficiente para estimular a criação mental que, como por automatismo, registra-se ao mesmo tempo que vai sendo criada. Quão diferente é fazer poesia! O prosador acostumado com essa facilidade quase terapêutica, se arrisca-se a compor versos, encontrará algo muito, muito diferente…
Verlaine parece um personagem dostoievskiano
Percorro um volume de Verlaine e as impressões misturam-se a um ponto em que é impossível arriscar qualquer conclusão. Toda essa irreverência inata, essa biografia indecente, essas linhas que mesclam êxtase e fadiga, essa alma terrivelmente perturbada… Verlaine parece um personagem dostoievskiano à beira da loucura. E como escreve bem! É tão irritante como natural que sua obra, isto é, a obra de um artista devasso, tenha ecoado tão fortemente, sobretudo entre os incontáveis devassos que se reputam, mas nunca serão artistas. Porém, é inegável o talento com que Verlaine representa, para dizer como Carpeaux, suas “sensações musicais”. Impõe-se a comparação com Villon e impõe-se, igualmente, o reconhecimento. Grande artista!
Milagrosamente especial
Notar a extensão insondável do universo, as escalas representáveis apenas pela matemática e que a própria mente é incapaz de conceber, todas as distâncias, grandezas, o número de astros que beira o infinito, e perante tudo isso, em algo inferior a um ponto, invisível e insignificante, notar que residem seres providos de consciência, — aparentemente os únicos, — capazes de se identificar dentro deste todo ilimitado. É um contraste espantoso. A mente, se nele refletir com atenção, acabará julgando a condição humana milagrosamente especial. Um engodo? Talvez. Mas, de fato, é o que parece…