O grande gênio o mais das vezes vive estorvado

Creio ter sido Carpeaux a notar que o grande gênio o mais das vezes vive estorvado pelas circunstâncias. E mesmo que não queira, mesmo que resista, uma força parece colocá-lo em movimento, proibir-lhe a inércia improdutiva. Assim temos o perfil mais comum: um indivíduo nem pobre, nem rico; nem totalmente desprovido de meios, nem agraciado com demasiadas facilidades. Põe-se em ação; fá-lo porque precisa, porque sente pulsando um desejo e uma necessidade de superar-se, de elevar-se, que não é senão uma recusa terminante das condições presentes. Destarte, adquire uma motivação inquebrantável, disposta às últimas consequências para alcançar aquilo que se propôs. Adapta-se como pode aos estorvos momentâneos e segue adiante, sempre adiante. Então, todo esse conjunto complexo de circunstâncias de que fala Pessoa, especialmente as do ambiente, torna-lhe o espírito excepcionalmente vigoroso, para que seja por fim beneficiado pelos necessários — como também nota Pessoa — “episódios mínimos de sorte”. É um fenômeno interessantíssimo, e que dá o que pensar…

Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada…

Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada, — e tão imitada!, — o mesmo ocorre em poesia com essa leveza simulada, essa simplicidade querendo-se profunda, essa delicadeza que, quando não expressão autêntica de um temperamento, enfastia. Em resumo: Drummond e Bandeira. Talvez a maior maldição do sucesso seja-lhe os rebentos, isto é, os imitadores. Como é constrangedora a técnica quando exposta sem o verniz original! E ver todas essas cópias baratas pululando, tornando ridícula a própria criatividade a engendrou… Diretamente, é verdade, os originais não se maculam; contudo, é difícil que algum artista se regozije com falsificações. Restam os antídotos, e nenhum parece mais potente que inserir na própria arte excentricidades absurdas, repugnantes, as quais imitador nenhum terá coragem de se apropriar.

The development of personality, de Carl Jung

Jung é realmente admirável! O esforço que empreendeu na tentativa de integrar os elementos irracionais da psique humana em sua psicologia analítica, ciente das críticas que receberia da comunidade científica, é digno do maior apreço. Jung não somente recusou-se a negar ou esconder o que via, como buscou sinceramente explicações para problemas extremamente intrincados, expondo-as ainda que a tatear na escuridão. A visão de “personalidade” que expõe neste paper traduzido como The development of personality mostra uma argúcia raríssima em filhos da academia e afronta a noção de que o homem limita-se a uma construção biológico-social. A personalidade não pode ser ensinada ou generalizada, não manifesta-se espontaneamente e consiste num ato de coragem contra o comportamento de rebanho. É um distintivo, um destino e uma maldição. É uma deliberação consciente e individual, que exige um compromisso consigo mesmo e que jamais se dá por necessidade. É, pois, uma escolha, com consequências insuportáveis à maioria e que altera por completo o paradigma comportamental daquele que a efetiva. Jung, talvez o maior dos psiquiatras modernos, foi especialmente grande por não acomodar-se no conforto dos manuais de psicologia e não ceder ao postulado delirante de que a mente humana obedece a um funcionamento universal.

A personalidade só floresce no deserto

De Nietzsche:

Estando entre muitos, vivo como muitos e não penso como eu; após algum tempo, é como se me quisessem banir de mim mesmo e roubar-me a alma — e aborreço-me com todos e receio a todos. Então o deserto me é necessário, para ficar novamente bom.

A personalidade só floresce no deserto e não resiste a muito tempo de contato coletivo, o qual não faz senão estrangulá-la. É como uma tortura ao indivíduo consciente de si, habituado a viver como pede-lhe o íntimo, fazendo da própria vida uma realização interior o encontrar-se coagido pelo meio, que o impele a negar-se posto que representa a antítese da singularidade que o define. Prezando-se, não deve ele permitir-se mais que doses homeopáticas de contato com os homens, sempre atento para que estas não lhe contaminem a rotina e sabendo que, afinal, o que mais tem a ganhar com fazê-lo é o topar-se repetidamente com os motivos que justificam e exigem a afirmação do próprio voto.