A ideia da Universidade e as ideias das classes médias

O quadro pintado por Carpeaux no ensaio A ideia da Universidade e as ideias das classes médias é de uma atualidade impressionante. O cenário, aliás, não fez senão se agravar. O “regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos” é um fenômeno consumado no ocidente. Muito em razão desta tendência às especializações, necessárias e destrutivas, que empurraram para o limbo a alta cultura e cercearam as possibilidades para o indivíduo comum que, logo em tomando conhecimento de si mesmo, vê-se o mais das vezes esmagado pelo império da necessidade, que hoje abocanha-lhe uma parte tão grande da vida que pareceria absurda em tempos passados para alguém dito “livre”. As universidades, consoante à tendência hodierna, ensinam profissões e possibilitam carreiras: é o que pede o mercado. A formação cultural já não faz parte do escopo dos cursos e, assim, o aluno deixa hoje o ensino médio semianalfabeto para passar o resto da vida sem escutar uma única palavra sobre história ou literatura. Crescem as universidades, uma massa enorme gradua-se, especializa-se, coleciona títulos acadêmicos e angaria prestígio, dinheiro, reconhecimento; “mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas”. É um desastre.

É de uma audácia formidável o dinheiro…

É de uma audácia formidável o dinheiro ter invadido o terreno da filosofia da forma que o fez. Nestes dias, qualquer tratado sobre a liberdade individual que se preze deve dedicar umas boas páginas a este tema tão terreno e tão desagradável. É como se um imenso balde de terra tivesse sido jogado em cima de um manancial de concepções idealistas. Não parece que seria hoje possível viver como viveram muitos ascetas de tempos passados; isto é, é improvável que, hoje, aqueles não seriam submetidos a uma necessária escravidão. É certo que a falta de dinheiro limita a liberdade, e não é preciso ser materialista para aceitar a hipótese de que, sim, também o dinheiro pode aumentá-la. Mas que pode fazer o dinheiro pela liberdade do homem? A partir de que ponto é supérfluo? Se o homem comum, forçosamente, tem de tomar parte na cultura do money-making, é justo que determine o quanto e até quando deve se afundar. Portanto, aí está um importante objeto para a ética…

O Goethe de Eckermann

Vou deixando que fale o Goethe de Eckermann enquanto a mente é-me tomada por um turbilhão de comentários de Nietzsche, Jung e Cioran. E oscilo enquanto Goethe discorre sobre a arte e mil outros assuntos, ora apreciando-lhe as palavras, ora experimentando um completo estranhamento. Um espírito complexo e admirável, sem dúvida. Mas um espírito de quem julgo-me afastado, por inclinações e pela própria concepção da poesia, do poeta e da arte. A grandeza de Goethe, como artista e como homem, é inquestionável. Porém, seria possível ajuntar aqui um caminhão de ressalvas, que são felizmente escusadas por já estarem presentes na obra de Jung.

 

Conversações com Goethe, de Eckermann

Essa modéstia literária, forçada, cheia de pompa, tão ao gosto dos caçadores de elogios, nada tem de modéstia e mais parece vaidade. A virtude, se autêntica, é espontânea. A humildade simulada agrada tanto quanto uma nota falsa. Dito isso, é notável a simpatia que a verdadeira modéstia pode inspirar. É o que ocorre nestas admiráveis Conversações com Goethe, de Eckermann. Desde o princípio, o autor se nos apresenta com uma simplicidade absolutamente despretensiosa. Narra-lhe, sucintamente e sem dramatizar, as próprias origens, e conduz a obra com uma sinceridade digna do maior apreço. É de se lamentar que, ainda assim, tenha sido alvejado por ironias. Mas é inevitável que a verdadeira virtude seja invejada por aqueles que a não possuem. Eckermann é humilde, simplesmente humilde, e suas linhas agradam, sobretudo, pela naturalidade com que apresentam temas elevados. Pela forma e pelo conteúdo, é uma obra merecedora dos mais sinceros elogios.