O artista bon-vivant

Diz Burckhardt, em minha tradução inglesa:

Indeed, without this degree of force of character, the man of the most brilliant “talent” is either a fool or a knave. All great masters have, first and foremost, learned, and never ceased to learn, and to learn requires very great resolution when a man has once reached heights of greatness and can create easily and brilliantly. Further, every later stage is achieved only by a terrible struggle with the fresh tasks they set themselves.

“Force of character”, “never ceased to learn”, “terrible struggle”… aí está uma visão sensata do estado de espírito que produz grandes obras. É realmente uma piada essa visão romantizada do artista bon-vivant, tão disseminada nestes dias. Segundo ela, o exercício da arte é um prazer, um divertimento para os momentos de ócio. Um artista desta estirpe é, se muito, medíocre. Diante da postura de um artista sério, mesmo a tão falada “busca pela beleza” parece de uma futilidade afrontosa. Toda essa idealização do artista e da arte não parece definir muito bem a motivação real daquele que dedica um esforço descomunal, que molda a existência inteira em torno da própria ocupação, nunca relaxando, nunca satisfeito, na contramão daquilo que lhe é conveniente. Burckhardt, como poucos, apresenta-nos uma visão prudente daquilo que representa a verdadeira grandeza.

Carpeaux e Burckhardt

Intercalo Carpeaux e Burckhardt e é um verdadeiro prazer silenciar para que essas inteligências se pronunciem. Carpeaux, é impressionante, parece sempre disposto a apresentar-nos um novo autor, a conduzir-nos fisicamente pelo tempo e pelo espaço, brindando-nos com sua cultura inesgotável, pintando cidades, insuflando-nos de atmosferas longínquas, tudo isso com um estilo que parece mesclar o talento de um artista e a experiência de cem vidas. Já Burckhardt parece, do alto de uma torre, protegido das agitações de seu tempo e de todos os tempos, observá-las todas, analisá-las com a imparcialidade de um cientista e as inclinações de um diletante. Suas profecias são impressionantes. Se involuntárias, como sugere o próprio Carpeaux, evidenciam uma precisa e singular compreensão dos processos evolutivos da cultura e do tempo em que estava inserido. É realmente um prazer!

A “popularização” da ciência

Burckhardt pergunta, em suas Considerações sobre a história universal, em que resultaria a inesperada “popularização” da ciência que se deu no século XIX. Cá estamos… A ciência a que Burckhardt se referia já não é a mesma. Esta foi aviltada a partir do momento em que deixou-se despegar da nobre finalidade e permitiu-se aplicada a interesses vis. Desvirtuada numa espécie de autoridade que contraria a humildade característica da investigação verdadeiramente científica, profanada como instrumento político, servil à ditadura do dinheiro, já não se pode mirá-la com a admiração de outros dias. A própria arena científica, ainda que a isolemos de influências externas, está corroída por conflitos de interesses comparáveis aos que se dão na política. Aliás, que é que não se corrompeu após a ascensão “popular”? Mesmo Burckhardt, com sua nobre e radical repulsa à cultura do money-making e à plutocracia ainda em gestação, se espantaria ao ver como, hoje, tornou-se perigoso ignorar os impactos sociais e econômicos de uma possível investigação científica. O resumo: nada resiste a uma “popularização”.

Deveria haver um nome para o sentimento de afeto…

Deveria haver um nome para o sentimento de afeto em relação à própria terra que o diferenciasse deste patriotismo desprezível que não faz senão castrar a mente do julgamento equânime. O próprio dicionário já faria bem apontando xenofobia como possível sinônimo para patriotismo, tendo em vista o uso que se fez deste vocábulo infeliz. Que decepção! Abrir livros de história, e deparar-se com aduladores infames da tirania e do poder, encontrar justificativas inaceitáveis para todo tipo de crime, defrontar o apego à burrice, a recusa inarredável em admitir qualquer virtude que não afague o orgulho “patriota”… Cabe subscrever o que disse Cioran: “Un homme qui se respecte n’a pas de patrie”.