A facilidade com que um autor aborda os seus temas preferidos esconde o quão perigoso pode ser imitá-lo. Lendo-o, parece tudo muito simples. Mas é simples porque a abordagem nasce de uma inclinação autêntica, e esta não é imitável. Para descobri-lo, porém, às vezes é preciso experimentar. E disso não escapam nem os melhores. Um belo exemplo são as Americanas de Machado de Assis. Certamente, a um amigo que pudesse ver-lhe interiormente, enxergar-lhe as obras futuras e o potencial criador, bastariam meia dúzia de versos para que viesse a recomendação jocosa: “Ora, meu bom Joaquim! Largue essa coisa de Anhangá e tacape! Você nem sabe o que é isso”. E, decerto, não haveria melhor conselho: o autor daqueles versos não era Machado de Assis. O duro é que, na prática, só é possível dizê-lo porque Machado, sozinho, percorreu a trilha das falhas para se descobrir e se nos revelar.
A influência de um autor pode ser medida…
A influência de um autor pode ser medida quando se repara o quanto imitaram suas excentricidades. Salvo Gonçalves Dias, provavelmente nenhum escritor brasileiro jamais viu um índio de verdade. Ainda assim, a literatura indianista virou moda, lançando algumas dezenas de obras ociosas, quase ilegíveis, porque obviamente falsas. Todos esses nomes de plantas, de bichos, de tribos, só se harmonizam com a tradição vernácula portuguesa quando tal harmonia não representa senão a essência íntima do autor. Evidentemente, trata-se de uma excentricidade, que cai bem em Gonçalves Dias porque poderia, ela própria, chamar-se Gonçalves Dias. Quantos, porém, não o notaram! E então, à vista da lindíssima Baía de Guanabara, gastaram o ócio falando de índios que nunca viram! Felizmente, os melhores aprenderam das tentativas falhadas, e um anjo os convenceu de que, para fazer boa arte, basta tomar como matéria-prima aquilo que os olhos conseguem ver.
Toda vida encerra um drama próprio…
Toda vida encerra um drama próprio que não se adequa à maior parte das generalizações. Mesmo a natureza mais simples, com os mais comezinhos interesses, coloca na existência algo inteiramente individual. Por isso, às vezes, é refratária a conselhos, e mergulha em problemas aparentemente sem solução. O que nisso fica encoberto decorre da velha observação de São Tomás de Aquino: circunstâncias particulares exigem procedimentos também particulares. Ignorá-lo é retirar, sempre, a realidade da situação.
O brasileiro parece fadado a não superar…
O brasileiro parece fadado a não superar a juventude, ou, pelo menos, a ter de vivenciar por muitos anos um contraste incômodo entre suas preferências e sua idade, até que a natureza dê cabo da situação. Ainda assim, são permanentes os efeitos psicológicos deste problema que, em verdade, não tem razão de ser. Toda essa dificuldade em enxergar o passado como etapa concluída, sem renegá-lo nem desmerecê-lo, mas admitindo que não mais condizem as antigas inclinações, é algo que só pode ser atribuído a uma formação deficiente. Não é o medo, nem uma verdadeira identificação que impede o avanço no tempo, mas a incapacidade de enxergar na vida uma finalidade com a qual este só tende a contribuir.