Intercalo Carpeaux e Burckhardt e é um verdadeiro prazer silenciar para que essas inteligências se pronunciem. Carpeaux, é impressionante, parece sempre disposto a apresentar-nos um novo autor, a conduzir-nos fisicamente pelo tempo e pelo espaço, brindando-nos com sua cultura inesgotável, pintando cidades, insuflando-nos de atmosferas longínquas, tudo isso com um estilo que parece mesclar o talento de um artista e a experiência de cem vidas. Já Burckhardt parece, do alto de uma torre, protegido das agitações de seu tempo e de todos os tempos, observá-las todas, analisá-las com a imparcialidade de um cientista e as inclinações de um diletante. Suas profecias são impressionantes. Se involuntárias, como sugere o próprio Carpeaux, evidenciam uma precisa e singular compreensão dos processos evolutivos da cultura e do tempo em que estava inserido. É realmente um prazer!
A “popularização” da ciência
Burckhardt pergunta, em suas Considerações sobre a história universal, em que resultaria a inesperada “popularização” da ciência que se deu no século XIX. Cá estamos… A ciência a que Burckhardt se referia já não é a mesma. Esta foi aviltada a partir do momento em que deixou-se despegar da nobre finalidade e permitiu-se aplicada a interesses vis. Desvirtuada numa espécie de autoridade que contraria a humildade característica da investigação verdadeiramente científica, profanada como instrumento político, servil à ditadura do dinheiro, já não se pode mirá-la com a admiração de outros dias. A própria arena científica, ainda que a isolemos de influências externas, está corroída por conflitos de interesses comparáveis aos que se dão na política. Aliás, que é que não se corrompeu após a ascensão “popular”? Mesmo Burckhardt, com sua nobre e radical repulsa à cultura do money-making e à plutocracia ainda em gestação, se espantaria ao ver como, hoje, tornou-se perigoso ignorar os impactos sociais e econômicos de uma possível investigação científica. O resumo: nada resiste a uma “popularização”.
Deveria haver um nome para o sentimento de afeto…
Deveria haver um nome para o sentimento de afeto em relação à própria terra que o diferenciasse deste patriotismo desprezível que não faz senão castrar a mente do julgamento equânime. O próprio dicionário já faria bem apontando xenofobia como possível sinônimo para patriotismo, tendo em vista o uso que se fez deste vocábulo infeliz. Que decepção! Abrir livros de história, e deparar-se com aduladores infames da tirania e do poder, encontrar justificativas inaceitáveis para todo tipo de crime, defrontar o apego à burrice, a recusa inarredável em admitir qualquer virtude que não afague o orgulho “patriota”… Cabe subscrever o que disse Cioran: “Un homme qui se respecte n’a pas de patrie”.
Uma decepção amorosa afeta, o mais das vezes…
Uma decepção amorosa afeta, o mais das vezes, uma camada superficial e menos nobre do indivíduo. Dói, mas é a dor física do animal ferido. Geralmente, não abala o conceito de amor na alma desiludida: é possível encontrar outro alguém. A decepção, porém, quando proveniente de um amigo a quem foi dedicada amizade no sentido único em que esta palavra deveria ser empregada, que eleva as almas envolvidas e enobrece a raça, é como uma punhalada de duríssimas consequências filosóficas e morais. Diferentemente da traição amorosa comum, não é o orgulho que se fere, mas a parte superior da natureza, que não pedia nada e recebeu mesquinhez em troca da generosidade. É algo que enche a alma de desgosto. Arrasa o conceito que se faz dos outros; debilita a capacidade de confiar; mina, de antemão, a disposição para relações futuras… Grande bobagem! Como se esta palavra, exatamente como a outra, já não estivesse corrompida…