Voltaire, mais do que ninguém, tinha de crer

Voltaire, mais do que ninguém, tinha de crer na existência de uma entidade superior que o concedeu a graça de acertar um cavalo premiado e desfrutar de uma estabilidade que, à esmagadora maioria dos mortais, parece fábula. Voltaire, Voltaire… tu foste redondamente ingrato! E vejam só! Não bastasse este contrassenso, temos aí uma multidão de Boehmes que, sem iluminação, sentem-se iluminados. Tudo isso parece-me extraordinário. Seriam consequências da esperança? estaria esta calcada numa necessidade, e portanto ausente no eminente sortudo? poder-se-ia, assim, classificá-la como um prêmio? Talvez, talvez…

O escritor pode dormir até no chão…

Foi Faulkner, creio, quem disse que o escritor pode dormir até no chão, mas precisa de um lugar decente para trabalhar. A ideia é interessante em muitos aspectos. Primeiramente, por evidenciar necessária uma seriedade no lidar com o próprio trabalho; caso contrário, dificilmente se fará algo de valor. Ter um local “decente” para o trabalho, ainda que não haja condições decentes no restante da vida, é uma mostra de prioridade, de respeito pela própria ocupação. Psicologicamente, é saber que há o momento mais importante do dia, o momento para o qual a rotina é moldada e os esforços devem convergir. Com isso, vários problemas são superados. Há outro aspecto digno de nota: o conforto de um local “decente” confrontado com o “dormir no chão” é a satisfação para alguém que, acostumado a condições inadequadas, acomoda-se num ambiente propício e estimulante. Uma cadeira razoável, uma mesa, luz e silêncio; um horário definido e um compromisso gravado na pedra — assim, soterra-se as desculpas oriundas da fraqueza mental.

O caráter utópico da possibilidade única de harmonia social

É curioso notar o caráter utópico da possibilidade única de harmonia social. Esta implicaria, basicamente, a liberdade individual e a proteção contra as tentativas de sua violação. E é impossível porque manifesta-se no mesmo indivíduo que carece de liberdade o impulso incontrolável de violação da liberdade alheia para a realização de seus anseios. Tal impulso, é claro, é minorado quando se aumenta a distância entre os indivíduos, livrando um da presença do outro — o que não é possível nas cidades modernas superpovoadas. Força é, pois, que se resolvam, ou que alguém os obrigue a se resolver. Mas surge um impasse: tolerar plenamente o outro é o anarquismo e o caos; o caminho oposto é a supressão das liberdades. Disto observa-se que o convívio necessariamente cria desequilíbrio, e só se alcança alguma estabilidade social proibindo, controlando, impedindo, o que acaba acarretando a natural reação daquele que tem a liberdade violada, que é o mesmo que necessita impor-se, invadindo a liberdade alheia, e que representa a justificativa inquestionável das proibições e controles. Sociologia é o fim!

A prática religiosa perde a nobreza quando…

A prática religiosa perde a nobreza quando, em vez de trabalhar pela purificação espiritual, serve ao homem como compensação aos vícios rotineiramente praticados ou, pior, converte-se-lhe em veículo de expressão de todos eles. É natural que o homem, tendo em si o mal, busque meios para canalizá-lo. Mas ver religiões, isto é, práticas que deveriam esforçar-se para que o homem se livre da própria miséria, dando azo à inveja, à vaidade, à vingança, ao impulso que se afirma em detrimento do outro e inúmeras outras manifestações lamentáveis e destrutivas, induz a imenso desgosto e à conclusão amarga de que a espécie definitivamente não tem solução.