A fecundidade de Victor Hugo

Parece uma afronta, um insulto constatar Victor Hugo ter composto mais de cento e cinquenta mil versos em apenas uma vida. Cento e cinquenta mil! É inacreditável, uma verdadeira humilhação defrontar essa fecundidade inatingível, esse monumento poético proveniente da pena de um único homem. Se exercitamos a matemática, chegamos a uma média de produção diária que só parece razoável a alguém que empregue a vida inteira apenas em dormir e compor versos. Considerando todo o processo criativo que envolve a ideação, planejamento, estruturação, realização e apuro; considerando que uma mente normal esgota-se no cansativo trabalho de fisgar palavras no dicionário, e que portanto é inviável, desestimulante e até contraproducente uma jornada de trabalho muito longa, como justificar Victor Hugo? Como aceitar-lhe a obra poética, sabendo haver peças, romances, ensaios sob a mesma assinatura? É espantoso…

Há poucos exercícios tão saudáveis…

Há poucos exercícios tão saudáveis e estimulantes quanto personificar o imortal Bernardo Soares. Em mente, conversar com os inexistentes ou distantes pares, viver o que as circunstâncias impedem, criar o que a vida não permite… tudo isso numa prática que progressivamente enriquece os detalhes, altera os cenários, amplia-se e evolui. O fazê-lo é abrir uma nova dimensão para a vida, é engrandecer-se mediante experiências impossíveis, aperfeiçoando o raciocínio, desafiando-se, experimentando emoções todas novas num plano onde não há limites ou impedimentos. É deixar, por fim, o disfarce de ajudante de guarda-livros para efetivamente viver a realidade que escolher.

O espírito superior, quanto mais desenvolve-se…

O espírito superior, quanto mais desenvolve-se, mais aumenta o distanciamento entre si e os outros, complicando as relações até torná-las impossíveis. Nietzsche confessou: “A minha humanidade é uma contínua vitória sobre mim mesmo”. E a verdade é que desenvolvendo-se, um espírito individualiza-se, e consequentemente afasta-se de quanto é tido como “comum”. Homens ordinários encontram semelhantes com uma facilidade que é quase uma bênção, justamente por haver entre eles uma similaridade psicológica e comportamental que permite afinidade imediata. Aos que se apartam da norma, tudo é muito diferente. O individualizar-se, por isso, dá-se em detrimento dos vínculos; é portanto um inconveniente que deve ser meditado. Quem se retira dos homens, acaba por transformar-se num estranho; a realidade se lhe transfigura e se, por um lado, evolui espiritualmente, por outro torna-se incapaz da simpatia pelos homens, enfim considerando uma vitória, como fê-lo Nietzsche com a sinceridade habitual, o simples suportar-lhes a proximidade.

Não é justo condenar Freud…

É verdade, é verdade: não é justo condenar Freud por expor as debilidades de seus pacientes, por explorá-las em busca de justificativas; afinal, de outra forma não seria possível esboçar-lhes soluções. Freud, assim, cumpria uma importante incumbência de um psiquiatra. O problema, porém, e o reprovável, é analisar-lhe a obra em conjunto e constatar não haver indícios de possibilidades superiores ao ser humano. Freud, não lhos encontrando nos pacientes, poderia encontrar em si mesmo, poderia concebê-los ainda que numa vontade de superação ineficaz. Mas não o fez; e, naturalmente, validou em si aquilo que esboçou como modelo humano. É curioso: Nietzsche é frequentemente taxado de louco, seu “além-homem” de utopia absurda, sua vontade de potência de delírio. E os mesmos que o não compreendem, aprovam as ideias de Freud. Mas aí está: tanto Freud quanto Nietzsche desnudaram-se, e se neste encontramos um impulso poderoso que impulsiona à verdade, à arte e, sobretudo, à vitória sobre si mesmo, naquele defrontamo-nos com uma prostração ante as fraquezas da carne e da mente, fruto de lamentável miséria espiritual. Não há fugir: a obra acaba, fatalmente, desvelando o íntimo do autor.