Variadas doutrinas ao longo da história…

Variadas doutrinas ao longo da história compreenderam e expuseram que o problema central da existência humana é o justificá-la, que não é feito senão através da própria vida, através de atos que valem por respostas. Variam as terminologias, como variam os caminhos recomendados; o que não varia é a noção de necessidade desta tomada de consciência individual e suas implicações, isto é, a necessidade de agir em conformidade com as aspirações da natureza íntima. Só assim é possível uma afirmação que vale ao ser humano como bálsamo universal. Portanto, pelos mais diversos meios, o que ensinam as grandes doutrinas é a orientação da vida em torno de uma finalidade — e o homem, definindo-a, tem a missão de esforçar-se por sua realização.

É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda…

É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda interpretou e expôs o hinduísmo, integrando-o, alargando-lhe os braços e convertendo-o num legítimo catalisador de transformações positivas para o ser humano. Seu Raja yoga é a exteriorização de uma filosofia nobre, corajosa e estimulante. Pouquíssimos são os autores capazes de compreender em profundidade a condição humana e oferecer uma solução que não implique a repressão forçada ou o desvanecimento da vontade. Swami Vivekananda, em vez de conduzir a um agravamento de tensões ou ao eclipse da consciência, propõe uma conduta mental ativa direcionada à elevação da própria natureza. Constrói, engrandece, encoraja a superação. Grande homem!

Por todas as vezes que gargalhei…

Por todas as vezes que gargalhei do temperamento explosivo de Cioran, de sua maravilhosa fúria na fila de mercearias e inúmeras outras situações que recordo-me sempre em risadas, parece que estou, agora, a pagar por elas, e parece direcionarem-me gargalhadas do céu. Todas as banalidades estúpidas que me compõem a rotina, a porta que deve abrir para que eu saia de casa, a balança que deve funcionar para que eu pese e compre comida, o sol que deve altear para que eu saiba ser dia… todas essas coisas banalíssimas, que sempre funcionam porque têm de funcionar ou, melhor dizendo, todos os seres humanos cuja função de alguma forma me afeta, juntos e ao mesmo tempo, deixam de cumpri-la, mas com o capricho de interromperem-me a rotina e estorvarem-me com problemas os quais não tenho meios para resolver! Cioran certamente gargalha; é o preço: agora é minha vez de fazê-lo rir… Mas é incrível notar a impossibilidade da paz neste mundo. Buda é um personagem folclórico: no mundo real, haveria alguém para tirá-lo do sério e arruinar-lhe o progresso espiritual.

Raiva, raiva…

“Nada desordena o pensamento como um acesso de raiva.” Não é só a tranquilidade que se perde, mas a construção de longos esforços, de longo aprimoramento que materializa-se num estado aparentemente estável, desmorona inteira e abruptamente. É o progresso mental que retorna à estaca zero. Disto, é repetir todo o processo. Asseguram os budistas que uma vida inteira de meditação perde-se num destes impulsos. Se não é assim, o certo é que estragam antes e depois. Oh, tristeza! Oh, vontade de chorar!