O poeta converte-se com facilidade em bom prosador

Já notaram que o poeta converte-se com facilidade em bom prosador, enquanto o contrário dificilmente acontece. Comparada à prosa, a poesia apresenta um nível de dificuldade tão superior que ao poeta aquela parece-lhe quase brincadeira. Para compor versos é preciso, em primeiro lugar, estar num estado de espírito propício, isto é, num estado de espírito que permita concentrar-se inteiramente na composição. Dispersa, a mente não faz poesia. Em seguida, a lentidão no compor, as dificuldades técnicas, o grande número de elementos que se devem harmonizar na criação, tudo isso, com o tempo, acostuma o espírito a uma paciência e uma disciplina que, para fazer linhas em prosa, está muitíssimo além do necessário. Faz-se prosa à força; prosa fluida e natural. O simples movimentar dos dedos é suficiente para estimular a criação mental que, como por automatismo, registra-se ao mesmo tempo que vai sendo criada. Quão diferente é fazer poesia! O prosador acostumado com essa facilidade quase terapêutica, se arrisca-se a compor versos, encontrará algo muito, muito diferente…

Verlaine parece um personagem dostoievskiano

Percorro um volume de Verlaine e as impressões misturam-se a um ponto em que é impossível arriscar qualquer conclusão. Toda essa irreverência inata, essa biografia indecente, essas linhas que mesclam êxtase e fadiga, essa alma terrivelmente perturbada… Verlaine parece um personagem dostoievskiano à beira da loucura. E como escreve bem! É tão irritante como natural que sua obra, isto é, a obra de um artista devasso, tenha ecoado tão fortemente, sobretudo entre os incontáveis devassos que se reputam, mas nunca serão artistas. Porém, é inegável o talento com que Verlaine representa, para dizer como Carpeaux, suas “sensações musicais”. Impõe-se a comparação com Villon e impõe-se, igualmente, o reconhecimento. Grande artista!

Milagrosamente especial

Notar a extensão insondável do universo, as escalas representáveis apenas pela matemática e que a própria mente é incapaz de conceber, todas as distâncias, grandezas, o número de astros que beira o infinito, e perante tudo isso, em algo inferior a um ponto, invisível e insignificante, notar que residem seres providos de consciência, — aparentemente os únicos, — capazes de se identificar dentro deste todo ilimitado. É um contraste espantoso. A mente, se nele refletir com atenção, acabará julgando a condição humana milagrosamente especial. Um engodo? Talvez. Mas, de fato, é o que parece…

Que saiam como o espelho do estado de alma…

Estou nos versos derradeiros de mais um voluminho de poemas. Nestes nove ou dez meses de trabalho; observo com prazer que me não sentei à mesa senão com motivação semelhante à de um Vigny, de um Antero, de um Leopardi. E disto resultou que os versos, todos eles, saíram-me carregados, desprovidos totalmente daquela “graça” de que falava Goethe. Ou, ao menos, é assim que me parece. Creio improvável, senão impossível, que algum dia me submeta ao trabalho extremamente fatigante de caçar palavras para produzir essa “graça” que tanto deleita. Ainda que me caia na conta bancária uma bênção, ainda que eu esteja no melhor de meus humores, opera algo como que automatizado pelo hábito: psicologicamente, o sentar-me para compor versos cumpre uma sequência quase religiosa que preenche-me a mente de uma seriedade que repugna o fútil, o leve, o “gracioso”. Se é para fazer versos, que saiam como o espelho do estado de alma de alguém que encara-os como a última oportunidade de expressar-lhe o que pulsa mais forte. Que saiam perturbados, complexos, desagradáveis! E que jamais deixem parecer que aquele que os compôs estava a se divertir…