É curioso notar o caráter utópico da possibilidade única de harmonia social. Esta implicaria, basicamente, a liberdade individual e a proteção contra as tentativas de sua violação. E é impossível porque manifesta-se no mesmo indivíduo que carece de liberdade o impulso incontrolável de violação da liberdade alheia para a realização de seus anseios. Tal impulso, é claro, é minorado quando se aumenta a distância entre os indivíduos, livrando um da presença do outro — o que não é possível nas cidades modernas superpovoadas. Força é, pois, que se resolvam, ou que alguém os obrigue a se resolver. Mas surge um impasse: tolerar plenamente o outro é o anarquismo e o caos; o caminho oposto é a supressão das liberdades. Disto observa-se que o convívio necessariamente cria desequilíbrio, e só se alcança alguma estabilidade social proibindo, controlando, impedindo, o que acaba acarretando a natural reação daquele que tem a liberdade violada, que é o mesmo que necessita impor-se, invadindo a liberdade alheia, e que representa a justificativa inquestionável das proibições e controles. Sociologia é o fim!
A prática religiosa perde a nobreza quando…
A prática religiosa perde a nobreza quando, em vez de trabalhar pela purificação espiritual, serve ao homem como compensação aos vícios rotineiramente praticados ou, pior, converte-se-lhe em veículo de expressão de todos eles. É natural que o homem, tendo em si o mal, busque meios para canalizá-lo. Mas ver religiões, isto é, práticas que deveriam esforçar-se para que o homem se livre da própria miséria, dando azo à inveja, à vaidade, à vingança, ao impulso que se afirma em detrimento do outro e inúmeras outras manifestações lamentáveis e destrutivas, induz a imenso desgosto e à conclusão amarga de que a espécie definitivamente não tem solução.
A criação de amigos imaginários
Como sabiamente recomendou Fernando Pessoa, a criação de amigos imaginários, o exercício de conversações mentais que jamais seriam efetivadas em vida, a realização do impossível pela mente, tudo isso, para além dos benefícios provenientes das novidades infinitas, acarreta contribuições inestimáveis para a organização do raciocínio. É uma prática que testa limites, expõe contrapontos, alastra horizontes, além de suprir a carência oriunda da limitação da experiência. A mente sai fortalecida porque exercitou-se e conheceu mais, o pensamento toma contornos mais sólidos, e o hábito, com o tempo, converte-se numa salutar, prazerosa e insubstituível necessidade psíquica e existencial.
Parece que os traços colocados por Dostoiévski…
Parece que os traços colocados por Dostoiévski, especialmente, na personalidade de Míchkin seriam inconcebíveis para alguém que nunca os observou atuantes na vida real. Inconcebíveis porque pareceriam absurdos e nada convincentes. Mas aí está: essa inocência que aparenta não sendo estupidez, essa absoluta falta de espanto, essa benevolência sem limites, esse falar que erra na escolha das palavras, esse agir meio tímido, meio confuso, que parece indeciso e tanto gera estranhamento… Toda essa complexidade que sempre aparenta aquilo que não é, somada ao olhar de quem sabe e aceita, sem medo, sem surpresa, sem julgamento e sem reação, induz quem a observa a uma perplexidade que a lógica é incapaz de explicar. O raciocínio não admite o que vê e, faltando-lhe explicação melhor, põe tudo na conta do desvario e do absurdo. Míchkin, porém, é real, e contrariando as expectativas de uma raça aprisionada na mesquinhez de espírito, mostra que a alma humana, elevando-se, despega-se do que lhe prende ao chão.