A plena objetivação operada pela modernidade e a subsequente doutrinação das massas para essa peculiar maneira de encarar a realidade produziu indivíduos carentes de uma importantíssima faculdade mental. Adestradas a considerar proibidas determinadas hipóteses, as novas mentes já crescem com um défice de possibilidades, que lhes são arrancadas pela raiz. Cada vez mais parece óbvio que a maior miséria desta época é ter objetificado o ser humano, e portanto lhe destruído a dimensão transcendente, resumindo-lhe ao caráter limitado e corrompido da matéria comum. As consequências desta noite terrível do espírito humano vão da desumanização ao emburrecimento, da destruição cultural ao regresso moral, do caos ao vácuo que se lhe tornou característico. Como foi possível chegar a esse ponto? Mais uma vez, parece certo quando Tolstói diz que há circunstâncias históricas que parecem definidas por uma força maior — resta-nos, como sempre, o espanto e a hesitação no conjeturar os porquês…
Embora muito se ganhe e algo se possa apreender…
Embora muito se ganhe e algo se possa apreender da mente através da interpretação dos sonhos, é preciso muito cuidado para não cair na tentadora estupidez de racionalizar o não racionalizável. Muito útil, sem dúvida, estar atento ao que se passa em estados onde a consciência volatiza; há muito que se aprender e o exercício é assaz estimulante. O que não se deve fazer é sucumbir à necessidade lógica de atribuir sentido a manifestações espontâneas, imprevisíveis, irracionais. Um estudo acurado, com o tempo, aponta ligações, coincidências, e talvez um ou outro arquétipo circunstancial ou emotivo particular da mente analisada. O resto varia como variam a experiência, o temperamento, a conjuntura da vida real, os lances recentes e, também, a ilimitada imaginação. Considerando tudo isso, há de se admitir que, embora frequentemente malbaratado, este é um estudo, no mínimo, intrigante.
Feliz aquele que descobre…
Feliz aquele que descobre não ser necessário responder quando lhe dirigem a palavra, não ser preciso conceder atenção a quem lha exige, não ser mandatório curvar-se ao teatro das conveniências e resumir-se a um escravo deste jogo social. Felizes os misantropos, os homens embrutecidos das cavernas, os eremitas, os peregrinos, os rebeldes, e todos aqueles que têm repugnância ao convívio! — pois felicidade, afinal, é não ser um infeliz.
Oliver Twist, de Charles Dickens
Parece-me o maior acerto de Dickens, em Oliver Twist, residir nos capítulos iniciais da obra. Dickens apresenta-nos o protagonista em condições tão comoventes, que é impossível que este não nos suscite empatia imediata. A história prossegue, e o enredo é conduzido com inteligência: o tempo inteiro percebemos que havia outras escolhas, talvez mais naturais, mas que minariam a relação que travamos com Oliver — Dickens opta por não lhe manchar o personagem, nem limitá-lo ao óbvio. Oliver Twist, sem dúvida, desde o princípio da narrativa mostra-se mais interessante que um pobre coitado. Os antagonistas, os cenários, a progressão da trama: tudo isso é muito bem descrito e convence. A partir da metade da obra, porém, nossos anseios começam a ser satisfeitos, e a narrativa culmina num desfecho planejado para agradar. Aqui, talvez, poder-se-ia lamentar a ausência de surpresa, como também poder-se-ia apontar que se esperava mais iniciativa do protagonista. Como obra de arte, porém, Oliver Twist encerra um arco dramático justo e, portanto, é muito boa.