Graças a Fernando Pessoa, tenho percorrido caminhos que jamais imaginei. Avanço sobre as repulsas, sobre os receios, sobre o desinteresse, e vejo-me oscilando entre indiferença e curiosidade. Uma curiosidade intelectual, é verdade. E então? Então que se me abriram possibilidades, digamos assim, e o horizonte intelectual do poeta mostrou-se-me mais vasto do que julgava. A vocação exige afirmações regulares e variegadas, tem de fortalecer-se mediante elementos diversos da realidade, isto é, tem de afirmar-se por eles, absorvendo-os em si. E parece-me que os insólitos caminhos trilhados por Pessoa contribuíram sobremaneira para que ele se convertesse no que é — noutras palavras, para que ele atingisse um grau raríssimo de afirmação.
Quando a certeza não é possível
Quando a certeza não é possível ou, acaso, seja questão de índole, é preciso que o homem tenha coragem o suficiente para agir orientado por indícios. Um indício envolto em espessa penumbra tem de sê-lo satisfatório, é mister que ele se apegue ao pouco que tem — do contrário é trancar-se na inércia. Encontrar, pois, o indício! Encontrá-lo e agarrá-lo firmemente! Seguir-lhe o caminho sugerido e amparar-se na possibilidade — porque é esta, sem dúvida, melhor do que o nada.
Por mais irracional e desconfortável que seja…
Por mais irracional e desconfortável que seja, é forçoso, para aquele que vê, admitir que há coincidências tão acachapantes, tão incrivelmente expressivas, — embora por vezes de significado obscuro, — que o negá-las ou sequer calar-se sobre elas parece indigno do apreço à honestidade. “Coincidência” é termo incorreto, “acaso” uma justificativa que afronta a inteligência capaz de uma matemática simples, que logo taxa-o de absurdo inadmissível, o maior dos absurdos possíveis. Disto, lamentavelmente não se tira conclusões seguras, não se extrai certezas que esclarecem cabalmente o mistério, mas parece mais nobre dizer o que é visto com as palavras concebíveis em vez de negar o patente por incapacidade de expressão.
A multiplicidade
Em arte, o traço que talvez mais impressione e mais caracterize verdadeiros gênios é a multiplicidade. Se tomamos de exemplo um Fernando Pessoa ou um Shakespeare e lhes analisamos a obra, parece-nos incrível que manifestações tão variadas tenham saído de uma mesma mente. Quer dizer: se, enquanto lemos, nos atentamos não para a obra, mas para a mente que a gerou, buscando compreender-lhe as motivações e os intentos, ficamos impressionados ao notar como comporta oscilações por vezes antagônicas, e como logra expressá-las límpidas e potentes. É como se, confrontando-a com uma mente comum, notássemos que, de um lado, há um caráter vicioso e tíbio, e, de outro, há uma potencialidade criativa sem limites.