O que faz Mário Ferreira dos Santos nesta obra intitulada Sobre Deus é digno de nota. Após uma breve exposição sobre o tema escabroso, segue-se um debate de altíssimo nível em que são confrontados simplesmente os melhores argumentos a favor e contra a existência de Deus. Mário, embora externe de antemão sua posição pessoal a respeito do problema, deixa-lhe os opositores falarem livremente. O resultado é uma obra, sobretudo, esclarecedora, cujo desfecho expõe fatalmente as contradições terríveis em que se atiram aqueles que negam a existência de Deus, isto é, a existência do criador supremo, eterno, autossuficiente e imprescindível. Pela lógica, é forçoso admiti-lo. Mas há mais, há um efeito interessantíssimo decorrente da honestidade intelectual e da sabedoria de Mário: não se tem notícia de argumentos mais fortes, completos e convincentes contra a existência de Deus que os levantados pelo barão de Holbach; e estes permeiam a obra sem obstáculos, livres para evidenciar-lhes a potência. Ocorre que, quando confrontados com as provas lógicas irrefutáveis oferecidas pelos grandes estudiosos do problema, as provas lógicas que exigem a existência de um princípio criador e exige-lhe as qualidades que tanta polêmica têm gerado há tanto tempo, os argumentos de Holbach perdem a força, ainda que não estejam sendo diretamente rebatidos. Que efeito! A lógica se impondo soberana! Tudo que poderia ser dito contra Deus está dito, e dito de forma emotiva, eloquente, reunindo aspectos o bastante para que nenhuma alma permita-se indiferente. E, ainda assim, a argumentação fracassa completamente diante de um exame acurado…
As conclusões de Hegel
Há muitos trechos luminosos na argumentação de Hegel, mas suas conclusões parecem sempre incorrer no erro. Vai ele, com sua terminologia escusada, — e que soa terrível em português, — louvando a renúncia e o sacrifício, assentando-lhe o raciocínio num misto de lógica e moralidade, para então nos propor que ambos sejam feitos inútil e automaticamente, não por uma manifestação individual de abnegação, desprendimento, bondade, empatia ou o que for, mas pelo dever de cumprir uma ordem do Estado. Que conclusão! Seguindo o filósofo, o certo é que o discípulo, praticando-os dessa forma, jamais saberá o valor real da renúncia e do sacrifício. É tão óbvio quanto estúpido explicá-lo: aquele que sacrifica um bem ao próximo, quando é este necessitado, pratica uma ação de efeito imediato, e o sacrifício é portanto profícuo e virtuoso; aquele que, em contrapartida, sacrifica um bem ao Estado, isto é, a essa organização corrupta, autoritária, gananciosa e usurpadora, cujos recursos que espolia são empregados em grande parte na manutenção e ampliação do domínio que exerce sobre os indivíduos, o sacrifício não só é inútil, como toma contornos de insulto. Como é possível não percebê-lo? Isso para nem falar que tal sacrifício, no último caso, dá-se por imposição cujo não cumprimento implica castigo. Escuso-me, por mais uma vez benevolente, de esboçar uma conclusão.
A consciência nobre
Que alegria é acompanhar Hegel por centenas de páginas para então vê-lo nos ensinar que a consciência nobre é aquela que acata, amordaçada e de joelhos, as ordens do Estado. “Consciência nobre”, portanto, é a consciência submissa, impotente ante o “poder vigente”, desprovida de individualidade, desprovida, justamente, de algum distintivo que poderia identificá-la como superior. Se isso é nobreza, podemos supor a Beleza como a estética do estupro e corrupção massiva de consciências.
O espírito inclinado ao apego
O espírito inclinado ao apego não está preparado para esta vida. Metodicamente, será forçado a engolir separações inevitáveis, que menos o instruirão por não provirem de uma decisão consciente. Será refém das circunstâncias e sofrerá sentindo-se ante elas impotente. É rara a capacidade de optar amiúde pelo rompimento: e só reservada àqueles que compreendem e aceitam que tudo, neste mundo, há de ter um fim.