É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda…

É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda interpretou e expôs o hinduísmo, integrando-o, alargando-lhe os braços e convertendo-o num legítimo catalisador de transformações positivas para o ser humano. Seu Raja yoga é a exteriorização de uma filosofia nobre, corajosa e estimulante. Pouquíssimos são os autores capazes de compreender em profundidade a condição humana e oferecer uma solução que não implique a repressão forçada ou o desvanecimento da vontade. Swami Vivekananda, em vez de conduzir a um agravamento de tensões ou ao eclipse da consciência, propõe uma conduta mental ativa direcionada à elevação da própria natureza. Constrói, engrandece, encoraja a superação. Grande homem!

Por todas as vezes que gargalhei…

Por todas as vezes que gargalhei do temperamento explosivo de Cioran, de sua maravilhosa fúria na fila de mercearias e inúmeras outras situações que recordo-me sempre em risadas, parece que estou, agora, a pagar por elas, e parece direcionarem-me gargalhadas do céu. Todas as banalidades estúpidas que me compõem a rotina, a porta que deve abrir para que eu saia de casa, a balança que deve funcionar para que eu pese e compre comida, o sol que deve altear para que eu saiba ser dia… todas essas coisas banalíssimas, que sempre funcionam porque têm de funcionar ou, melhor dizendo, todos os seres humanos cuja função de alguma forma me afeta, juntos e ao mesmo tempo, deixam de cumpri-la, mas com o capricho de interromperem-me a rotina e estorvarem-me com problemas os quais não tenho meios para resolver! Cioran certamente gargalha; é o preço: agora é minha vez de fazê-lo rir… Mas é incrível notar a impossibilidade da paz neste mundo. Buda é um personagem folclórico: no mundo real, haveria alguém para tirá-lo do sério e arruinar-lhe o progresso espiritual.

Raiva, raiva…

“Nada desordena o pensamento como um acesso de raiva.” Não é só a tranquilidade que se perde, mas a construção de longos esforços, de longo aprimoramento que materializa-se num estado aparentemente estável, desmorona inteira e abruptamente. É o progresso mental que retorna à estaca zero. Disto, é repetir todo o processo. Asseguram os budistas que uma vida inteira de meditação perde-se num destes impulsos. Se não é assim, o certo é que estragam antes e depois. Oh, tristeza! Oh, vontade de chorar!

Basta de psicanálise!

Percorro uma obra interessante sobre psicologia, quando começam as referências à psicanálise. Deus! Creio-me num ponto em que já não posso mais suportá-la; foi-se o respeito, a condescendência apaziguadora. Já não parece-me cansativo, mas deprimente continuar mirando esse modelo humano medíocre proposto por Freud. Um modelo aferrado ao passado, castrado de potencialidades, para quem o futuro não é senão a continuidade do presente lamentável, o arrastamento de uma escravidão mental. Penso em Buda ou, antes, no jovem Sidarta, cuja relevância começa exatamente após a tomada de consciência da vida e a primeira manifestação da personalidade, que deliberou um rompimento abrupto e terminante com o passado — algo impossível segundo Freud. Seguiu o ex-príncipe e trilhou-lhe o célebre caminho, que não guardou absolutamente nenhuma semelhança e não sofreu absolutamente nenhuma influência determinante das experiências prévias de Sidarta. Tornou-se Buda, e antes de Buda alguém diferente, alguém cujos passos manifestavam uma vontade livre e resoluta, cujas ações afirmavam um desprendimento último não só do passado, como de todas as correntes que Freud asseverou como componentes necessários de seu modelo humano. Purificou-se escalando níveis, agregando-lhe à experiência as provações que tornaram-lhe cada vez mais autêntico, e cada vez menos o que fora. Basta de psicanálise!