Vigny e eu

Muito do que Vigny diz de si mesmo eu poderia atribuir a mim sem alterar uma vírgula. Tenho, como Vigny, esse “besoin éternel
d’organisation”, sem o qual não me movo; sou, como ele, “seul”, “exempt de tout fanatisme”; também a mim a vida cuidou dotar-me desta “sévérité froide et un peu sombre” que não é inata; quanto ao método criativo, identicamente concebo, planejo, moldo e deixo esfriar antes da execução final; poderia também dizer com toda a minha alma que “l’indépendance fut toujours mon désir”; compartilho, ainda, a repugnância de Vigny às futilidades, fruto de alguém que, estando “toujours en conversation avec moi-même”, encontra no estorvo das interrupções sempre motivo para frustrações… e a lista poderia continuar. Vigny, contudo, faz a nota: “Aimer, inventer, admirer, voilà ma vie”. Ah, Monsieur! Lamentavelmente, estas vossas palavras já não posso subscrever… Não faz mal: Deus me deu o senso de humor.

Se a mágoa e o caráter são verdadeiramente grandes

Se a mágoa e o caráter são verdadeiramente grandes, o resultado é o silêncio. Não se admite jamais que a língua articule palavra sobre a ferida: isso não é senão o respeito por si mesmo e pelo próprio passado. A mente, porém, que se vale da ética somente quando lhe é conveniente, cuida eternizar a mágoa por evocações regulares. E assim, não podendo freá-la, o espírito tem de acostumar-se a esta dupla realidade, sempre atento para não se trair permitindo que escape aquilo deve continuar encoberto. É preciso muito traquejo e paciência para lidar com essa área escura independente da vontade.

É impossível que um moralista não aparente amargo

É impossível que um moralista não aparente amargo a mentes comuns, porquanto amaríssimas são as conclusões a que chega quando contrapostos o senso moral que lhe pulsa à realidade mundana. O ser moralista necessariamente acarreta essa predisposição a observações desagradáveis. Todo o seu trabalho é um esforço para encarar e esmiuçar aquilo que uma mente comum evita; e se avança, não o faz senão pelo desejo de esclarecimento e pelo dever de sinceridade. É por isso que, se um dia enfim abranda, se as linhas lhe passam a exibir uma serenidade quase beatífica, merece a nossa admiração e reconhecimento: isso jamais se dará sem que tenha vencido os problemas sobre os quais se debruçou.

É nos momentos em que o espírito cede…

É nos momentos em que o espírito cede e rebaixa-se que renasce impetuosamente a motivação que o caracteriza: deixar de ser-se evidencia, pelo contraste, o verdadeiro valor daquilo que é. Então, mais uma vez, as diretrizes e prioridades traçadas com estímulo renovado, que se seguem da conduta que prova-se novamente ideal. Já em casa, torna a satisfação. E disso parece razoável concluir que quedas esporádicas são necessárias para que se restaure a humildade inimiga da inércia, a humildade ansiosa por moldar-se e que, em se moldando, torna-se gradativamente melhor.