A convivência é uma senhora perversa que à força corrompe a moral e doutrina ao vício. Aquele que convive compra esta senhora usando a própria liberdade como moeda. Torna-se alguém pior, decerto. Nisto, a psicologia moderna é infalível: há um acordo convivial velado que implica ações as quais, se não cumpridas, são geradoras de desconforto individual e coletivo. A evolução moral exige um rompimento deste acordo, porque consiste numa reação ao instinto mundano. A virtude, embora praticada no mundo, só pode ser concebida na solidão.
Uma concepção superior da existência
Parece necessário ao homem que efetivamente sobrepuja as fraquezas da carne o amparar-se numa concepção superior da existência, isto é, acreditar — e é esta a palavra — em algo que transcenda a realidade concreta. Agindo assim, a simples razão aponta-lhe uma escala de valores que lhe deve servir de guia, e orientando-se nela é possível agir de praxe na contramão dos instintos — dando-lhes a importância devida.
Ah, se eu quisesse…
Ah, se eu quisesse fazer parte de um clube, de uma “escola”, de uma congregação! Após tomar conhecimento da existência de Antero, — quem eu poderia fantasiar, inclusive, como existência passada, visto o quanto tenho-me catequizado nestas filosofias, — eu me poderia facilmente incumbir de “continuar o que ele não terminou”, “resgatando” os seus “valores”, buscando-lhe os discípulos coevos a mim, etc., etc. Por isso, talvez, eu jamais pudesse ser Antero — alguém que martirizou-se cedendo às recaídas desse sentimento que, para uma mente incomum como a sua, deve ser exterminado em prol da paz.
Antero de Quental e Cesare Pavese
No diário de Cesare Pavese, o suicídio pode ser facilmente entrevisto posto que encontramos, primeiro, a ideia suicida que lhe afigura repetidamente como solução, e, segundo, oscilações temperamentais que lhe turvam a razão. Em Antero de Quental, o quadro é todo outro. Antero é, entre outras coisas, um estoico — e isso implica simultaneamente as capacidades de aceitar a realidade e de controlar a si mesmo. Em Antero, a despeito do conflito psicológico atrocíssimo, encontramos a razão tomando as rédeas do instinto, e disso decorre que o espírito, acostumado a oscilações agudas, também vê-se acostumado a convertê-las em impulsos profícuos através da meditação. Como, aos quarenta e nove anos, pôde Antero suicidar-se? Por um lado, parece-me óbvio estarmos todos sujeitos às suscetibilidades da raça; por outro, parece-me errôneo querer atribuir causas comuns a um homem incomum.