Poder-se-ia definir maturidade como a postura daquele que sofreu desgostos o bastante para perder a esperança infantil característica dos imaturos, não houvesse aí a noção implícita de que sucessivos desgostos acabam, hora ou outra, frutificando em maturidade. É impressionante o contraste: há naturezas que, como o vinho, são refinadas com o tempo; já outras… quão mal o tempo lhes faz! À medida que correm os anos, aumenta-se progressivamente o ridículo de cair em puerilidades; e há quem jamais as supere, senão tombando de mais altos penhascos, e a cada queda reforçando-lhe as convicções! São casos tristes, dignos de compaixão sincera, sobretudo porque a vida, de quem não lhe assimila as lições, não costuma se compadecer.
As emissárias do bom senso
Tão abundantes e tão antigas são as narrativas que expõem minuciosamente a perversa e regular opressão operada pela maioria contra indivíduos isolados, desamparados, que padecem como mártires jamais desagravados pela história, que parece absurdo, ainda hoje, as maiorias serem tidas como emissárias do bom senso. Desta mentira clamorosa, seria de se esperar que os homens se livrassem, ainda que por necessidade ou pudor. Curiosamente, o contrassenso persiste e se fortalece. Como justificá-lo? Explica, Carlyle! como conciliá-lo com a tua teoria de sepultamento de mentiras? O que parece é que, neste mundo, a injustiça não faz senão trocar de máscara ocasionalmente.
É fabuloso notar que o homem ordinário…
É fabuloso notar que o homem ordinário, fazendo metodicamente aquilo que não quer, não viva a empregar-lhe todas as forças numa tentativa de romper esse ciclo desagradável. Parece a faculdade de enxergar possibilidades não ter sido distribuída equitativamente entre os homens. Raríssimos são os que sentem pulsar a desonra em se rendendo ao conveniente. Disto, que concluir?… ser natural apanhar inerte em vez de mover-se por livrar-se das pancadas? Oh, ser racional!
Cada época dispõe de um par de lentes peculiar
Embora, essencialmente, a tragédia humana repita-se no decorrer dos séculos, são notórias as variações de cenário, personagens e enredo. É como se cada época dispusesse de um par de lentes peculiar. Por isso o artista, em cumprindo a justa recomendação de “pertencer ao seu tempo”, deve ter muito cuidado para não perder de vista o atemporal. Em mesma medida, as particularidades de um cenário podem gerar interesse e fastio: tudo depende da proporção com que elas se balanceiam com traços que não se desgastarão com os anos.