Nesta era em que há mais vozes que ouvidos, mais livros que leitores e mais facilidade que vontade de aprender, é improvável que se erga uma verdadeira autoridade intelectual e alcance o prestígio de um Voltaire, de um Goethe ou de um Walter Scott. A atenção que angariasse para si seria, no máximo, passageira, e portanto dificilmente gozaria do sólido e duradouro reconhecimento que grandes intelectuais gozaram noutros tempos. Isso não mostra senão uma característica desta época de atenção difusa e bombardeada ininterruptamente. É temível o que pode provir de uma época não só carente de autoridades verdadeiras, mas guiada por falsas; porém, de toda forma, o que se há de concluir é que, ao intelectual, tudo se tornou consideravelmente melhor.
Um exercício contínuo de paciência
A poesia, essa arte terrivelmente difícil, é um exercício contínuo de paciência. Não adianta: a pressa, em poesia, é sempre o erro. É um verdadeiro transtorno saber que, por um lado, é preciso se aproveitar das manifestações espontâneas, que brotam como rajadas e conferem grande potência aos versos; mas, por outro, é preciso deixar que os versos esfriem, solidifiquem, e então esmerá-los calmamente, ajustando o ritmo, trocando palavras, apurando a expressão. Dói sobremaneira a punhalada que é notar uma mácula originária da afobação. Todo um exaustivo trabalho, pois, conspurcado quando já não é possível repará-lo. Dele, ao artista, ficará somente a falha, somente a frustração. Por isso o labor poético é um exercício de autocontrole, de paciência, em que o poeta deve atuar também como estrategista, liberando e contendo-lhe os impulsos, suspeitando de si mesmo ainda quando concluirá que não havia de fazê-lo. E, ainda assim, não será suficiente…
O cérebro humano sempre acaba humilhado
O cérebro humano sempre acaba humilhado quando cede à tentação irresistível de ordenar o irracional. Seria muito mais fácil se o aceitasse em suas ilimitadas manifestações, e assumisse para si mesmo os próprios limites. Não se pode concatenar o espontâneo, o inédito, o excepcional sem que se corra um risco imenso de cair no ridículo. O erro é fruto da presunção. Se a razão exige respostas, carece de lógica, deve contentar-se o mais das vezes com o processo mesmo de análise, com o simples reduzir os possíveis enganos através da observação atenta, e evitar, quanto possível, o julgamento precipitado. O irracional existe, impõe-se, e não dá a mínima para suas considerações.
Todo artista possui inclinações e deficiências
Todo artista possui inclinações e deficiências. Há temas que, por uma disposição inata, saem-lhe com naturalidade e brilho; já outros, apresentam-lhe dificuldades. Por isso, em primeiro lugar, é importante que o artista seja capaz de identificá-los e classificá-los. Em seguida, é necessário empenho para desenvolver-lhe justamente as debilidades, e isso se dá exercitando a representação daquilo que lhe é oposto, explorando formas, arriscando. Em arte, é certo, há escolhas; mas também há fraquezas, e estas, se não assumidas, a seu modo conseguirão sempre se entranhar como defeitos evidentes. Completo será, assim, o artista que através do esforço converter em força aquilo que lhe não é natural.