O médico celestial

Diz Camilo, em passo borbotoante de inspiração:

Há um médico celestial, que Deus põe à beira de cada enfermo das doenças perigosas do espírito: não médico, antes anjo deverei chamar-lhe, anjo que sustém nas mãos candidíssimas a urna dos bálsamos, colhidos nas flores do Evangelho. É o TRABALHO.

(…)

Com o andar do tempo, amoleceram as durezas das religiosas dos Remédios.

Davam já mais largas à reclusa, e esqueciam-se de vigiá-la. Como a viam tranquila e afreimada em seus lavores, entendiam avisadamente que as tentações do demónio dificultosamente pegam da pessoa laboriosa: é por isso, diziam as senhoras lidas em vidas de santos, que os anacoretas faziam cestos de vime no deserto, impenetráveis escudos, e não cestos, contra as frechadas de Satanás.

Não é a solidão que rasga e dilacera: o duro, para o homem, é ver-se privado de distrações. Trabalhar! E, assim, desviar o espírito do confronto pungente que a maioria é incapaz de suportar. Isso, ainda que deixemos de lado as famigeradas “tentações”. É verdade, é verdade: estas linhas saem como que uma adaptação forçada; mas, conquanto não médico, Camilo era sagaz o bastante para perceber um sintoma desta mesmíssima doença e apontar-lhe um remédio eficaz.

A maior criação humana de todos os tempos

Sempre que um homem tenta concentrar-se, algo ocorre para atrapalhá-lo: essa lei fundamental do universo já foi posta à prova por mim infinitas vezes, e verifiquei-lhe a validade em todas elas. Analisei-a com meticulosidade superior a de qualquer cientista, e digo sem titubear: é infalível e não comporta exceções. Quase sempre, o universo envia como distúrbio a voz humana, em suas mais diversas e detestáveis manifestações. É por isso que, a mim, a maior elevação de espírito da história da humanidade foi a do sujeito — anônimo! — que inventou esta maravilha chamada abafador sonoro, abafador de ruído, protetor auricular ou paz portátil — este último nome, obviamente, é como eu mesmo a batizei. Concebida para proteger o trabalhador submetido a um ruído capaz de deixá-lo surdo, essa invenção magnífica simboliza o homem cuspindo na mão e pregando-a na cara do universo. É a maior criação humana de todos os tempos! Que seja abençoado por toda a eternidade esse gênio, esse santo, esse iluminado que a história tratou de esquecer!

Frankl, Jung e Freud

Graças a Deus, não habito clínicas de psicologia, mas apostaria que a logoterapia de Frankl supera a psicologia analítica de Jung e a psicanálise de Freud juntas em taxa de casos de impressionante mudança comportamental e sucesso terapêutico. Na logoterapia, vejo claríssima uma porta de saída para o caso de boa aplicação; algo que enxergo, também, na psicologia analítica de Jung, mas não na psicanálise de Freud, que mais parece um sistema paliativo de que o paciente jamais se poderá livrar — ao menos, não em casos verdadeiramente sérios. É verdade: há casos e casos — talvez, baseio-me nos infrequentes para a conclusão. A psicanálise moldou-se aos seus pacientes, e para eles pode ser efetiva. A psicologia analítica, mais abrangente e profunda, também é capaz de tratá-los — embora talvez para alguns “tipos psicológicos” seja menos agradável e, consequentemente, menos satisfaça. Para muitos pacientes, basta-lhes o desabafo de rotina; mas para o desesperado, o expressamente desiludido que entre num consultório em desamparo pleno, carregando em mãos uma vida medíocre e insatisfatória, que lhe inibe metodicamente as aspirações e não entregue sentido — para este, o candidato a suicida, o sentar num divã confortável e movimentar os músculos faciais é inútil, e o discípulo de Frankl parece-me o melhor preparado para entregar-lhe uma solução definitiva e dificilmente alcançável por outras terapias.

O homem comum deposita majoritariamente nas relações…

O homem comum deposita majoritariamente nas relações o sentido da própria existência. Relações são extremamente frágeis, e é previsível que, por isso, o homem comum descaia hora ou outra numa fortíssima crise existencial. O homem religioso, porém, o verdadeiro, que nada tem de comum, encontra algo mais firme para se apoiar. Diga-se o que quiser, não se tem notícia de algo como a religião para entregar sentido ao espírito humano: e só por isso já se lhe justifica o papel honroso que presta numa sociedade.