O contraste entre o budismo e o cristianismo

É realmente impressionante o contraste entre o budismo e o cristianismo. O primeiro nunca, jamais poderá ser praticado em massa, por simplesmente direcionar-se a tipos psicológicos minoritários, para usar a terminologia junguiana. O cristianismo não seria mal resumido como os ritos do cristianismo; já o budismo consiste em essência numa prática interior pessoal. Se falamos em cristianismo, podemos falar da comunidade cristã; falando em budismo, dizemos sobre uma relação que o budista trava consigo mesmo. O bom cristão pauta-lhe as ações pelos ensinamentos da Bíblia; o budista, seguindo os passos de Buda, tem-lhe a conduta como consequência de uma filosofia interior. Isso diz tudo e é desnecessário gastar palavras adicionais…

O caminho para a iluminação

Embora o fazê-lo possa contrariar a doutrina budista, dissecando analiticamente o “caminho para a iluminação”, apresentado de numerosas maneiras pelas mais variadas escolas, percebemos que ele pode, sim, entregar grande parte dos resultados que promete. A base das práticas tântricas budistas consiste em educar a mente através de um processo autossugestivo que estabelece um novo entendimento do ser e do meio. Por um conluio entre hábitos e reprogramação mental, acrescido de um retiro que dificulta distrações ou distúrbios, o ser efetivamente se transforma. Meditando por horas, dias, meses no vazio, enxergando a si e a realidade desprovidos de autonomia e fundamentação própria, convencendo-se parte de um todo, misturado no mesmo vazio em que medita, embora refém de ilusões da experiência sensível, é previsível que se alcance um rompimento — ou uma superação — dos laços terrenos, e consequentemente se chegue a um estado de alma cuja tradução portuguesa oscilaria entre paz e beatitude. Negar, repetidamente, o corpo, a mente, a realidade dos fenômenos observáveis, as sensações, em seguida visualizando-se como uma entidade superior disforme, controlando rigorosamente qualquer desvio de foco: alguém que prossegue por esse caminho com firmeza, certamente há de se tornar algo diferente. E pensar que tudo isso é apenas o assentamento do terreno…

A “morbidez delirante de um faquir”

É divertido pensar que provavelmente eu tenha sido o primeiro a utilizar “morbidez delirante de um faquir” — foi isso o que escrevi! — referindo-me à obra máxima de Nagarjuna. Nagarjuna, um santo, classificado sempre com superlativos e adjetivos preciosíssimos. Que posso fazer? Culpar-me a mente indomável? Esforço-me, tento imaginar uma realidade muito, muito distante, o silêncio da meditação de anos a fio, mas ainda assim não consigo admitir o contrassenso de boa parte da argumentação da obra. Quero convencer-me de que não me elevei o suficiente, que Nagarjuna raciocina de altitudes inalcançáveis para meu espírito. Quero pensar que o lapso no tempo, a realidade discrepante e a tradução tornaram a obra incompreensível para mim. Mas recordo-me de alguns silogismos e… bom, que venha o futuro, e espero sinceramente ser tomado de uma nova impressão.

Mulamadhyamakakarika, de Nagarjuna

Perdoem-me os budistas, — pelos quais tenho grande respeito, — mas não posso negar a sensação que experimentei ao percorrer o Mulamadhyamakakarika, do renomadíssimo Nagarjuna. Que dizer? O problema acaso esteja em minha tradução? Não creio… Mas confesso, lendo estas linhas, ter-me sentido não diante da iluminação de um sábio eminente, mas da morbidez delirante de um faquir. Sim, sim, pedras, por favor! Ainda que Nagarjuna, em palavras, mostre-se avesso à conduta de faquires, sou incapaz de imaginá-lo em estado de espírito superior, ao argumentar como empregando a lógica a romper os limites do absurdo. Disse lógica? Já parece faltarem-me palavras… De todo modo, é possível que o problema esteja em mim mesmo; mas não há motivo para ocultar essa estranhíssima sensação.