Nunca deixa de me impressionar…

Nunca deixa de me impressionar o ambiente cultural experimentado e descrito por homens de outros tempos. Para mim, é imergir numa realidade paralela que eu julgaria impossível não houvesse tantos e tantos relatos em diferentes línguas e de épocas distintas. Tudo parece apontar-me que eu e minha circunstância somos a exceção. Cada vez que percorro esses diários, cartas e similares, não é sem um sorriso no rosto que faço minhas notas. Cartas! Já não existem cartas; o gênero epistolar tornou-se quase poético. E pensar em toda essa literatura concebida sob o cheiro de tinta, penas, candeeiros, móveis robustos… e do lado de fora teatros, óperas, saraus… é toda uma realidade que impressiona sobretudo pelo contraste. Talvez esteja tudo realmente muito bem, e seja um privilégio poder apreciá-la com este encanto só conferido pelo tempo…

A ideia da Universidade e as ideias das classes médias

O quadro pintado por Carpeaux no ensaio A ideia da Universidade e as ideias das classes médias é de uma atualidade impressionante. O cenário, aliás, não fez senão se agravar. O “regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos” é um fenômeno consumado no ocidente. Muito em razão desta tendência às especializações, necessárias e destrutivas, que empurraram para o limbo a alta cultura e cercearam as possibilidades para o indivíduo comum que, logo em tomando conhecimento de si mesmo, vê-se o mais das vezes esmagado pelo império da necessidade, que hoje abocanha-lhe uma parte tão grande da vida que pareceria absurda em tempos passados para alguém dito “livre”. As universidades, consoante à tendência hodierna, ensinam profissões e possibilitam carreiras: é o que pede o mercado. A formação cultural já não faz parte do escopo dos cursos e, assim, o aluno deixa hoje o ensino médio semianalfabeto para passar o resto da vida sem escutar uma única palavra sobre história ou literatura. Crescem as universidades, uma massa enorme gradua-se, especializa-se, coleciona títulos acadêmicos e angaria prestígio, dinheiro, reconhecimento; “mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas”. É um desastre.

É de uma audácia formidável o dinheiro…

É de uma audácia formidável o dinheiro ter invadido o terreno da filosofia da forma que o fez. Nestes dias, qualquer tratado sobre a liberdade individual que se preze deve dedicar umas boas páginas a este tema tão terreno e tão desagradável. É como se um imenso balde de terra tivesse sido jogado em cima de um manancial de concepções idealistas. Não parece que seria hoje possível viver como viveram muitos ascetas de tempos passados; isto é, é improvável que, hoje, aqueles não seriam submetidos a uma necessária escravidão. É certo que a falta de dinheiro limita a liberdade, e não é preciso ser materialista para aceitar a hipótese de que, sim, também o dinheiro pode aumentá-la. Mas que pode fazer o dinheiro pela liberdade do homem? A partir de que ponto é supérfluo? Se o homem comum, forçosamente, tem de tomar parte na cultura do money-making, é justo que determine o quanto e até quando deve se afundar. Portanto, aí está um importante objeto para a ética…

O Goethe de Eckermann

Vou deixando que fale o Goethe de Eckermann enquanto a mente é-me tomada por um turbilhão de comentários de Nietzsche, Jung e Cioran. E oscilo enquanto Goethe discorre sobre a arte e mil outros assuntos, ora apreciando-lhe as palavras, ora experimentando um completo estranhamento. Um espírito complexo e admirável, sem dúvida. Mas um espírito de quem julgo-me afastado, por inclinações e pela própria concepção da poesia, do poeta e da arte. A grandeza de Goethe, como artista e como homem, é inquestionável. Porém, seria possível ajuntar aqui um caminhão de ressalvas, que são felizmente escusadas por já estarem presentes na obra de Jung.